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“Eu sou porque nós somos”: Mariana Silva imortaliza a ancestralidade através das lentes da câmera

Por Ana Luiza Lima

Nos territórios sagrados das religiões de matriz africana e na Congada, onde o povo preto honra sua ancestralidade, Mariana Silva usa as lentes de sua câmera para exaltar a cultura negra. Guiada pela sua paixão por registrar histórias, juntamente com um olhar de muito amor e respeito, a fotógrafa tem como propósito imortalizar a tradição. 

Foto: Mariana Silva
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Nascida em berço de matriz africana, Mariana carrega consigo o legado em cada percurso e resume sua jornada em um lema de interdependência profunda. “A filosofia da minha vida é o Ubuntu: ‘Eu sou porque nós somos’. Nenhuma trajetória se constrói sozinha. Eu sou porque os meus ancestrais foram e eu quero continuar sendo para os que vêm depois.” afirma a fotógrafa. Para ela, ver a felicidade de seus avós e dos meus pais ao testemunharem as conquistas que ela tanto almeja, é a tradução desse lema.

O convite de sua tia para fotografar a Congada foi a porta de entrada para um universo onde o clique vai além da imagem. Ao marcar sua presença inicial capturando imagens da lavagem do largo do Rosário, Mariana uniu a visão de mundo herdada de sua linhagem aos seus registros, buscando contar histórias que carregam a tradição, respeito e, acima de tudo, fé. A artista ressalta que fotografar o Candomblé ou a Congada exige carinho e emoção. Para ela, o ato de registrar ultrapassa a simples retratação dos ternos: trata-se de construir uma realidade e traduzir a verdade através das lentes. Essa sensibilidade dita o ritmo do seu trabalho, pois ela compreende que é preciso saber entrar em cada espaço com a consciência de que nada ali é estático, olhar para um fio de contas e enxergar a história pulsando viva diante dos olhos. O registro torna-se a memória que não se pode perder. 

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Apesar do apoio de seus avós, as primeiras barreiras surgiram dentro de casa, com a falta de incentivo de seus pais. Foi nesse contexto que, dentro das salas de aula, a vida cruzou seu destino com o de mais quatro amigos. Juntos, não tinham câmeras profissionais, mas compartilhavam um desejo mútuo de documentar a Uberlândia invisibilizada pela grande mídia. Ao registrar o cotidiano de bairros periféricos sem reconhecimento, o grupo dava voz ao que o sistema insistia em calar, fazendo da arte uma extensão da própria família.  Aos 15 anos, o grupo foi atravessado pela dor da morte de uma de suas companheiras e o luto se transformou em promessa . “A vida nos atingiu com a perda trágica da nossa melhor amiga, a Giovana, que faleceu com apenas 18 anos. No velório, fizemos um compromisso em nome dela, que dinheiro não seria mais um problema (…) Eu me comprometi para que um dia a nossa luta não fosse mais para não faltar, e sim para alcançar conquistas maiores.” – recorda Mariana. Naquele momento, a rua virou família e ela fez deles sua morada.

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Após firmar esse compromisso, ela internalizou um lema que leva consigo até hoje: devagar também é pressa. Essa filosofia de dar passos lentos, porém firmes, transformou a dor da perda em foco, selando a promessa e guiando-a para lugares antes inimagináveis, como ingressar em uma faculdade particular. Sendo a primeira mulher de sua família a ir além do ensino médio, o choque foi imediato, diante de um ambiente predominantemente branco com padrões fora de sua realidade. Nos primeiros momentos, a comparação e a culpa a dominaram, fazendo-a questionar seu próprio pertencimento. 

Porém, com a bagagem de sua parentela e por ser filha de Ogum, o orixá que abre os caminhos, ela não se curvou ao sistema. A artista levou para os trabalhos acadêmicos sua essência, retratando a cultura preta sob uma ótica de orgulho e potência. Suas apresentações foram as mais aplaudidas e por consequência, as que mais causaram desconforto a colegas preconceituosos. Essas produções ganham ainda mais relevância diante de dados do Disque 100 que apontam que houve 2.774 denúncias de intolerância religiosa no ano (alta de 12,2%), concentradas principalmente contra terreiros de matriz africana. Para a fotógrafa o veredito é simples, corpos negros precisam irromper seu espaço de direito, para transformar uma realidade de discriminação em preservação cultural, mas acima de tudo, respeito mútuo.

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Ao olhar para trás, Mariana acolhe sua versão do passado e diz: ‘seu sonho não era bobo,’ você está tendo coragem, tornou o sonho realidade’. Suas conquistas são a resposta para a promessa feita a Giovana e o orgulho da avó que só sabia escrever o próprio nome. A matriarca dizia para Mariana estudar para não ter a mesma vida, mal sabia ela que era sua maior fonte de inspiração.  “Quando eu soube que uma fotografia que tirei na Lavagem do Rosário foi transformada em xilogravura pelo João Buzão e exposta lá em Salvador, ver a minha avó chorar de emoção sabendo disso… é aí que você entende o peso de honrar quem veio antes”, desabafa Mariana. A artista está certa de algo: sua missão é reescrever a história de seu povo, levando o legado adiante através da memória que se concretiza visualmente, para que todos vejam a força indestrutível da cultura preta!

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