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“O muro vira tela e a rua se transforma em galeria” : Dequete subverte a revolta em graffiti pela cidade de Uberlândia

Por Ana Luiza Lima

Desenhada para silenciar as periferias, a estrutura social empurra essas comunidades para a invisibilidade e a criminalização. No entanto, Tiago Dequete usa sua vivência como sobrevivente das armadilhas do sistema para reverter essa lógica. Após carregar no corpo as marcas de seis tiros, ele ressignifica o trauma em grafite, colorindo os muros antes cinzas de Uberlândia e guiando a cidade rumo a uma transformação que combate o apagamento das vozes periféricas. 

Foto: Reprodução
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Há momentos em que a realidade exige um manifesto direto. Para Dequete, o simples ato de grafitar sua tag na parede já é revolucionário. Quando um jovem periférico deixa seu nome no centro urbano, ele quebra as barreiras da rejeição e assina um território que também é seu por direito. Essa transformação visual, afeta desde o próprio artista até as pessoas que admiram seu trabalho, uma dinâmica que materializa-se em projetos como o realizado no Beco do Planalto, onde ele subverteu a realidade local ao marcar o muro com spray e assim transformar a rua em galeria a céu aberto. Ao empurrar as margens para a invisibilidade, a estrutura social assiste à periferia usar da essência do graffiti e responder na mesma moeda, ocupando a cidade sem pedir licença. 

Essa visão de mundo foi moldada na crueldade das ruas, cenário em que Tiago sobreviveu a um grave atentado no qual levou seis tiros. Criado na periferia, o grafiteiro presenciou a repetição de ciclos de vingança intermináveis, alimentados por indivíduos dominados por uma revolta legítima que, na tentativa de defender sua honra, acabam matando uns aos outros. O artista evidencia que esse mecanismo nunca se encerra: cada vítima deixa para trás pais, irmãos e filhos que perpetuam a busca por revanches, cenário infelizmente muito comum vivenciado por moradores de favela. 

Essa realidade de vulnerabilidade se concretiza por dados do Datafolha, que apontam que 41% dos brasileiros convivem com o crime organizado em seus bairros.

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O preço cobrado por essas guerras, uma paz que nunca mais retorna, foi o estopim para sua virada de chave.  entendeu que, para romper o ciclo, a mudança precisava começar por ele, independentemente das escolhas alheias. Através do graffiti, ele enxergou que o verdadeiro rival não era o jovem da rua ao lado, mas sim o sistema. Em vez de responder à violência com mais agressividade, ele fez o caminho inverso ao usar o spray, como sua contraofensiva. Esse cenário artístico e consciente é o que realmente assusta as estruturas de poder, pois domina a engrenagem a seu favor e a neutraliza em seu próprio território.

Mas se o spray serve como manifesto político nas ruas, ele também se torna uma ferramenta para expor dores profundas. Diante de casos brutais como violência doméstica, realidade que testemunhou de perto acontecendo com sua mãe, o grafiteiro assume a responsabilidade de pautar o debate na cena urbana.“Às vezes eu quero só fazer a minha tag na rua, mas explode um caso de violência ou feminicídio na internet . Eu que vivenciei isso não consigo ficar alheio. Então mudo o plano de fazer algo tranquilo, e vou rasgar meu peito no muro pra falar disso. Geralmente é o projeto que dá likes, mas não estou ali por isso. Quero mostrar pros caras que não dá mais em 2026. Mulher não é propriedade sua”, desabafa o artista. Longe de ser apenas estética urbana, sua arte surge como denúncia para conscientizar quem transita nas ruas, de que certas atitudes já deixaram de ser aceitáveis!

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Para guiar a nova geração rumo à revolução sem recriar antigos padrões de brigas de gangue ou “cancelar um CPF”, como diz o Tiago, para legitimar-se na cultura do hip hop ele propõe uma atuação estratégica. Ele defende que os jovens devem usar ao seu favor a posição de quem pode ousar, sem carregar o peso da responsabilidade cobrado dos adultos. Isso se torna realidade em suas oficinas e espaços de pintura para moradores locais no projeto Jardim Urbano, onde a arte substitui a destruição. 

Essa atuação estratégica vai além das ruas. Dequete defende que é melhor acessar  primeiro certas portas, como as das universidades, para lá dentro subverter o imaginário social, do que agir de forma impulsiva e ter o acesso negado. Sendo o primeiro de toda a sua linhagem a conquistar um curso superior, ele enxerga a educação como um espaço de demarcação política.“Nossas histórias nas margens perpassam pela força das mulheres pois maioria de nós não teve figura paterna. Eu vi de perto a repetição desse ciclo de pobreza e falta de acessos se repetindo de avó para mãe. Para quem veio de uma estrutura que foi desenhada pro seu povo ocupar só o banco dos réus ou a vala comum, colocar o diploma na mesa é uma demarcação de território”, sentencia. Embora hoje não more mais na periferia, ele reitera que a favela não se refere a um lugar, mas sim a um estado de espírito.

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Carregando em cada célula de seu corpo a história de gerações oprimidas e invisibilizadas, sua missão é clara: reescrever a trajetória de seu povo. Não mais através da violência, mas subvertendo a revolta em arte para ocupar estrategicamente espaços onde possa influenciar jovens rumo a uma realidade diferente. Assim, Dequete torna-se a prova de que as margens não aceitam mais o silêncio e de que a história, agora, é escrita por quem o sistema sempre tentou apagar. 

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