Escrito por Vitória Pereira
As telas do cinema frequentemente encantam o público com narrativas grandiosas, onde diariamente, milhões de espectadores consomem a beleza do audiovisual, sendo influenciadas pelo que assistem. Pouco se pensa, no entanto, nos bastidores onde se constrói a alma dos filmes. Aproveitando-se do fato de que os olhos da audiência não estão voltados para a produção, grandes produtoras utilizam essa cortina de fumaça para esconder uma segunda camada de invisibilidade: a escassez de profissionais negros no set, principalmente em cargos de liderança. Como reflexo disso, a maior parte desse grupo, quando entra em cena, ainda está colocado em cargos como motoristas ou seguranças , o que os faz voltar para aquele antigo lugar de servidão.

É justamente a partir desse cenário de injustiça que nasce um inconformismo e um desejo forte coletivo de ruptura com a visão estereotipada e racista. Para a preparadora de elenco e roteirista, Rubia Bernacci, o audiovisual independente surge como uma urgência que acompanha sua própria autodescoberta. Foi a partir da sua vivência no ambiente universitário e através de parceria com outras pessoas pretas, que ela se reconheceu como mulher negra, definindo o rumo de sua arte: o cinema seria a ferramenta para demarcar com quem e para quem ela precisava falar.

Na mesma óptica, Nicole Kate, diretora e roteirista, assume a câmara ciente de que ela iria usar das próprias telas para mudar o imaginário dos consumidores, usando ao seu favor a influência que as redes têm sobre eles. Longe de enxergar a carreira apenas como ter um filme no currículo, a realizadora ressignifica o próprio conceito de submissão e ocupa a cadeira de direção, fazendo dela o seu verdadeiro “serviço” enquanto mulher preta, um verdadeiro ato de resistência.

Diante desse pano de fundo, Nicole manifesta ser crucial a inserção cada vez maior de pessoas pretas não apenas na frente das câmeras- atuando fora de papéis clássicos de submissão e violência a corpos negros- mas também nos bastidores, em um lugar de direção. Afinal, todos que estão no foco das lentes respondem a quem opera as decisões por trás delas. Como define a própria roteirista e diretora:
“É muito importante que a gente esteja à frente, mas é ainda mais importante que a gente esteja atrás. E estar atrás da câmera é coordenar isso… É dali que vai sair esse cuidado se aquilo ali vai ter um viés racista ou não… quem tá atrás que é o manda-chuva ali… o fato dessa pessoas ser preta já é um ponto pra gente ficar mais tranquilo do que a gente vai assistir […] mas é muito mais provável que teremos um resultado final que traga dignidade.”- diz a cineasta. Como reflexo disso, ela reitera com total autoconfiança que nasceu para dirigir e se considera uma líder nata, sem dificuldade em ocupar o espaço de chefia, como foi em seu último lançamento, Braga. Para ela, a autoconfiança é fundamental tanto para a excelência profissional quanto para superar as barreiras impostas pelo racismo estrutural.
A partir desse espaço de controle, onde os profissionais que partilham da mesma vivência racial oferecem o cuidado diferencial a história desses atores, Rubia corrobora com essa visão como peça chave, ao revelar que 50% da boa performance dos atores que é transmitida ao público é resultado direto de seu trabalho como preparadora, função cuja existência é desconhecida para maior parte da audiência. Ao rebater o mito de que o ator já chega “pronto”, ou de que a atuação é algo que acontece de forma puramente natural, ela lembra que seu ofício é vital para o resultado final da obra e para concretizar o acolhimento no set. É através da preparação, que os atores são poupados de negligências técnicas históricas, como erros crônicos na maquiagem e na iluminação de peles escuras, assim, proporcionando dignidade a esses indivíduos em set.
No entanto, apesar da preparação excelente e da liderança nata, a realidade brasileira ainda sabota o avanço real de muitos artistas independentes pretos. Apesar do mercado alegar que está abrindo mais portas para a inclusão, a visão da diretora é bem crítica em relação a isso: “A diversidade é pura ilusão! Trata-se de um plano de fumaça! Onde a indústria apenas empresta um espaço temporário para cumprir com uma demanda populacional e metas superficiais!” afirma.
Rubia corrobora, em partes, com sua colega de profissão. Ela sustenta que o cinema que ainda chega pra maior parte da população está na mão dos homens brancos ricos. Contudo, ela pondera que, apesar de ainda ser um mercado muito fechado, ele está em constante mudança, e a indústria perderá relevância e público se insistir em fechar as portas para novas vozes. Bernasi acredita que as narrativas dissidentes vieram para fica r e não é apenas uma mera ilusão de ótica, pois, pessoas negras são plurais e dotadas de uma versatilidade artística que historicamente foi sufocada. É possível, sim, abordar temas como dor e sofrimento, como ela exemplifica em seu próximo lançamento, “do sentimento confuso”, contudo, não se deve resumir suas histórias a isso. A obra, embora aborde a questão racial, reporta-se à psicopatia na adolescência, configurando-se como um verdadeiro divisor de águas.
A CENA AUDIOVISUAL EM UBERLÂNDIA
Nicole direciona suas críticas à produção independente em Uberlândia. Em contraste com o senso comum, a diretora rejeita a existência de uma barreira geográfica e aponta que o real obstáculo reside no ‘vira-latismo’ do eixo Rio-SP- a crença limitante de que a arte produzida fora das metrópoles é naturalmente inferior. Apesar de reconhecer que produções fora das cidades grandes são desafiadoras, em decorrência da carência de políticas públicas e cursos profissionalizantes da cidade, a cineasta defende que o desenvolvimento do audiovisual local depende diretamente da população, que ainda detém um olhar muito conservador, denunciando a desvalorização financeira local:
“Eu tenho um olhar meio esperançoso, eu acho que é possível, sim, mas claro, o mercado e as pessoas têm que amadurecer[…] Não adianta a gente querer que a cena ,vai amadurecer a cena do local, vai sempre ter que pegar as suas coisinhas, ir pro Rio e São Paulo. […] se você não consegue se virar na cidade que você tá, não vai conseguir se virar em lugar nenhum!”
Embora a dura crítica a esse cenário, Nicole não condena quem escolhe por migrar para os grandes centros, no entanto, defende que o fundamental é absorver as referências e conhecimento desses espaços e adaptá-las à sua realidade, transformando-os em algo novo, com identidade própria. Em conformidade a isso, Rubia enriquece essa visão ao apontar que produzir fora do trecho rio-sp é o maior diferencial competitivo que um cineasta independente pode ter, o que possibilita criar obras com “a cara do triângulo mineiro!”.
Esse isolamento geográfico impacta diretamente na carreira dos profissionais, pois sem a estrutura de grandes estúdios produzindo continuamente na região, os realizadores muitas vezes se deparam com uma trajetória solitária e desmotivadora. Em resposta a esse desafio, Nicole reitera a importância de parcerias que compartilhem dos mesmos sonhos e outros cineastas entram em cena, atuando como uma rede de apoio, e mão de obra para as produções, além de um combustível para o amadurecimento da cena fora das metrópoles. Para ambas as cineastas, investir em qualificação profissional e formações práticas são os elementos chaves que permitem tanto crescer e obter experiência prática necessária no cinema independente, como para driblar a falta de portfólio.
Para Rubia, esse cenário se consolida quando a artista busca se especializar em roteiro e produção na cidade do Rio de Janeiro, expandindo suas fronteiras para outro continente, quando se aprofunda no mundo das artes em seu intercâmbio para Portugal. Longe de representar um abandono de suas raízes, Rubia coloca em prática a visão anteriormente mencionada de absorver conhecimento de fora e reintegrar conforme a sua realidade.
Em contrapartida, para Nicole, essa mentalidade se concretiza no workshop de introdução ao audiovisual ministrado pela própria artista, espaço que funcionou como um atalho técnico indispensável para a estudante Laura Porto, participante aliada não negra do workshop, ao prevenir erros de principiante, poupando recursos e esforço. Para além do aprendizado de roteiro, a vivência proporcionou à estudante o exercício crítico de reconhecer a autoridade intelectual de uma liderança preta, operando ativamente na descentralização do protagonismo branco. E para quem assiste a cena, testemunhar uma liderança negra ocupando o topo da cadeia criativa foi um ponto essencial de representatividade e inspiração.
A inferiorização derivada de estereótipos internalizados e o ‘vira-latismo’ regional, que alimentam uma solidão geográfica, deixam de ser impeditivos para que essas realizadoras assumam o protagonismo de suas próprias histórias, tanto à frente quanto atrás das câmeras. Pelo contrário, esses obstáculos funcionam apenas como combustível que fortalece suas criações, gerando uma rede de apoio que combate qualquer barreira industrial. No final a mensagem é clara: as mentes negras já sabem exatamente como construir o sucesso de bilheteria — agora, é apenas uma questão de tempo até que elas passem a comandar o set por completo.




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