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Atlantique, mais que uma história de amor | Crítica

A sinopse de Atlantique não traz muito sobre a trama, ao lê-la você pensa ser apenas mais um filme de romance. É por pensar assim que o filme surpreende tanto.

Atlantique é um filme de drama romântico franco-belga-senegalês, lançado em 2019. Ele é dirigido pela francesa Mati Diop e escrito por Diop e Olivier Demangel. Mati Diop foi a primeira diretora negra a ser indicada e ganhar o Grand Pix do festival de Canne (prêmio equivalente a melhor direção), além disso, Atlantique foi escolhido como o filme para representar Senegal no Oscar, apesar de não entrar na lista final dos indicados de melhor filme em língua estrangeira.

A sinopse de Atlantique não traz muito sobre a trama, ao lê-la você pensa que vai ser somente mais um filme de romance: Ada é uma menina de 17 anos apaixonada por Souleimane, um jovem pedreiro que está trabalhando na construção de um prédio futurista à beira mar no subúrbio de Dakar, no Senegal. O único problema é que ela foi prometida para outro homem. É por pensar assim que o filme surpreende tanto. É difícil de falar sobre ele sem entrar na zona dos spoilers, então vou dividir o texto em duas partes. Na primeira vou tratar o filme de forma rasa, sem adentrar muito na trama. Na segunda vou me aprofundar mais, falando de vários momentos chaves da narrativa, então recomendo que assista o filme antes de ler essa segunda parte.

Parte 1: Sem spoilers

Apesar da sinopse e do poster de Atlantique lembrar vários filmes que já assistimos, ele é diferente de tudo que estamos acostumados a ver nesses filmes mais famosos, não só pela condução que a diretora faz da narrativa, mas também pela sua forma. O primeiro ato do filme é lento, você tem a sensação de que não acontece muita coisa. Para quem tá acostumado com a montagem hollywoodiana onde cada frame precisa te entregar uma informação, sente um cansaço a ver vários planos longos do mar, como se Diop realmente quisesse que a gente contemplasse aquela paisagem.

Na primeira cena somos apresentados a um grupo de trabalhadores que trabalharam construção de um enorme prédio, dentro desse grupo está Souleiman. Na volta para casa todos cantam e riem, a câmera foca em Souleiman que raramente esboça sorrisos e não se envolve na alegria dos demais. Logo depois ele avista Ada (Mame Bineta Sane), nesse momento somos apresentados à protagonista do filme. Depois do encontro deles descobrimos que Ada é noiva prometida para Omar, um jovem rico que pode prover uma boa vida para Ada. Enquanto todos querem e esperam que Ada siga seu “destino” e se case com Omar, a protagonista quer seguir seu coração e viver com Souleiman.

Apesar de Atlantique ser o longa de estreia de Mati Diop, vemos uma direção segura. Ela conduz as cenas com leveza e o naturalismo necessário, seja em momentos de reclusão da Ada em seu quarto, ou nas cenas que se passam nas movimentadas ruas da cidade. Diop nos promete um filme de drama, porém perpassa por vários outros gêneros. Podemos até dividir esses gêneros em núcleos do filme que se unem no final, falarei mais sobre isso na segunda parte. Além da excelente direção da Diop, outro aspecto técnico que se destaca no longa é a fotografia. Claire Mathon nos entrega uma fotografia que é quase uma personagem do filme, através dela conseguimos sentir o clima quente de Senegal, contemplamos os vários momentos do mar e do pôr-do-sol, que depois descobrimos o quão importantes são para a narrativa, e um dos aspectos mais importantes, apesar de ser uma fotógrafa francesa branca, ela consegue fazer uma fotografia que foge da exotização do corpo negro africano, tão comuns em filmes europeus ou estadunidenses.

Atlantique está disponível na Netflix e é uma experiência única. É um longa que precisa ser assistido em um momento que esteja com a cabeça calma e paciente, pois é um filme mais lento que o que estamos acostumados, porém, não por isso pior. Talvez isso faça de Atlantique um filme até melhor.

Parte 2: Com spoilers

Não quero soar repetitivo, então não irei repetir o início da história, mas sobre isso quero acrescentar o encontro de Souleiman com Ada, em que eles se veem separados pelo trem de passagem. Já nesse primeiro encontro podemos ter um vislumbre da presença fantasmagórica de Souleiman em que ele aparece e desaparece entre os espaços do vagão. Outra dica que a diretora nos dá são os vários planos do mar, que para mim, se torna um personagem essencial no filme. O mar é onde se encontra vários mitos e deuses das culturas africanas, além de ser o caminho da África para a Europa, um caminho que deve passar chegar em “um lugar melhor”. O filme em nenhum momento é didático enquanto a isso, mas para quem tem conhecimento sobre as diásporas dos povos africanos e do oriente médio para a Europa, sabe o que eles estavam a procura na Espanha.

De início Ada parece uma personagem passiva e frágil, que é realmente o que a sociedade espera de uma mulher. Mas com o passar do tempo vemos que ela é forte e convicta das suas decisões, apesar de toda a situação e a iminência de ser presa (o que chega a acontecer em certo momento), ela nunca desiste do seu maior desejo: Souleiman.

Durant o primeiro ato o filme não sai do drama romântico, onde a garota sofre pelo amor que a abandonou em busca de um lugar melhor, enquanto ela precisa ficar e se casar com quem ela não ama. A partir do casamento o filme entre no segundo ato e vai além do romance, nos traz também um filme policial. O fogo no colchão é tão surpreendente para nós quanto para os personagens do filme. Ele aparece como uma forma de contrapor tantas imagens de água que aparecem. Mais uma vez elementos da natureza como personagens que guiam a trama. Somos apresentados então para nosso outro personagem principal, e um tanto quanto misterioso, o inspetor Moustapha (Ibrahima Mbaye Sope). Ele aparece logo após ter desmaiado na noite anterior, a noite do crime, e aparece para fazer a investigação do caso. O inspetor suspeitar de Souleiman (ele estava vivo? O barco afundou? O que aconteceu com os outros rapazes?) e querer usar Ada para chegar até ele cria toda a atmosfera de filme policial prescrita nos filmes de gênero.

No meio da procura dupla por Souleiman (Ada porque queria encontrar o grande amor, e Moustapha porque queria prender o criminoso) somos apresentados ao terceiro gênero do filme: um suspense fantasioso. As mulheres incorporadas por espíritos andando na rua e chegando à casa do dono do prédio futurista, mais uma vez deixa tanto o público quanto os personagens confusos. A principio pensei que no terceiro ato se iniciaria uma nova trama apresentando novos personagens, mais uma vez caí na armadilha. A diretora se apropria bem da cultura senegalês para que os rapazes mortos voltem e cobrem a dívida, porém porque Souleiman não estava com os rapazes? Ao morrer você volta pelo seu maior desejo, mais tarde descobrimos que enquanto o barco afundava Souleiman só pensava em Ada, então ele voltou por e para ela. Os plots twists vão sendo revelados, o inspetor que tanto queria achar o culpado pelo crime, era o próprio culpado. Os rapazes que foram embora eram os espíritos e conseguiram sua vingança. Ada conseguiu se livrar do casamento arranjado, ficou livre e virou mulher.

O filme se completa com uma história de romance perfeita: o rapaz que foi embora volta para seu grande amor e a garota abandona uma vida que seria rica em dinheiro por uma vida rica em amor. Atlantique se aproveita de gêneros estabelecidos, os quebra e transforma em uma obra prima com protagonismo de personagens e da cultura africana.

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