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Para Onde Caminhamos Com o Conceito de Lugar de Fala?

O conceito, popularizado pela filósofa Djamila Ribeiro no Brasil e hoje muito reivindicado nos movimentos sociais, têm criado um cerceamento do debate que se coloca na contramão da reflexão que o conceito procurar estimular.
O lugar de fala, quando apontado e clamado por si só, pode delimitar o debater e reduzi-lo, gerando um silenciamento contraproducente às mobilizações e transformações que os Movimentos Sociais pautam. Imagem: Rep/ Brasil de Fato

Conceito sistematizado e teorizado no Brasil pela filósofa graduanda da Unifesp Djamila Ribeiro, o conceito de lugar de fala tem sido constantemente retomado dentro dos espaços dos movimentos sociais. A popularização do conceito e do que ele busca pautar é válida, mas com responsabilidade e sem o esvaziamento semântico que tem sofrido.

Emerson Soares

NOTA: Este não é um texto que se preocupa com algumas das últimas polêmicas que envolvem a filosofa e outras figuras ascendentes enquanto referências do movimento negro. Preocupo-me, somente, em retomar o conceito por ela desenvolvido e fazer uma reflexão sobre o seu papel dentro das lutas e dos debates que temos encaminhado dentro dos mais diversos movimentos sociais.

Os debates sociais gerenciados pelas pautas anti-opressão (TLGBs, mulheres, população negra, deficientes, gordos e outros) tem, constantemente, ativado a ideia do lugar de fala enquanto mecanismo essencial na ocupação e na legitimação do território da fala e do discurso das mais diferentes trajetórias e vivências.

Um efeito contrário ao que o conceito propõe tem se manifestado nestes espaços de debate. Por reflexão, o lugar de fala, dentro dos movimentos sociais, proveu auxílio no sentido de pensar os principais sujeitos rodeados de privilégios e que tem a maior autorização e legitimidade discursiva no meio social. Esses sujeitos, na maior parte das ocasiões, são homens, cisgêneros, heterossexuais e também brancos.

É inegável pensar que o lugar de fala, junto a questão da identidade, abre um território para o compartilhamento de vivências, experiências e reflexões de pessoas que parecem entre si e se identificam umas com as outras.

O ambiente da troca é um ambiente essencial de crescimento e de reconhecimento das pautas, bem como demonstra que repetições estão presentes nas vidas de várias pessoas, sinalizando que alguns problemas podem ser de ordem estrutural, e que por isso só podem ser resolvidos estruturalmente.

O problema do lugar de fala é que, nos mais diversos contextos, a necessidade da demarcação desse lugar pode encerrar o diálogo e a troca para além daqueles ocorrentes entre pessoas pertencentes a um mesmo grupo.

Quando isso acontece, uma outra realidade se perpetua junto: o pensamento acerca do problema se torna restrito ao grupo que o vivencia e que sobre ele debate. Por consequência, a sua abordagem dentro de outros espaços sempre necessita de alguém que o vivencia ou o vivenciou, limitando a reflexão sobre o problema a uma equivalência simbólica e material de uma pessoa que o enfrenta.

É óbvio que uma pessoa que vivencia um problema pode conceber formas mais eficazes e realistas de resolução dele. O problema do lugar de fala é que ele cria um ciclo endógeno do pensamento sobre opressões, fragmentando as lutas e as pautas e criando uma desresponsabilização coletiva de problemas similares – e divergentes –, que por sua vez justifica as nossas ausências nas reflexões de acerca de outras pautas que não aquelas que nos oprimem.  

Em outras palavras, se sou um TLGB branco, somente problematizarei e falarei sobre raça na companhia de uma pessoa negra. Se sou um homem negro, somente falarei sobre os problemas das mulheres negras na companhia de uma. Se sou magro, somente falarei das questões de pessoas gordas quando na presença delas.

Nesse sentido, o lugar de fala está sendo compreendido como uma posição totalitária e extrema do debate anti-opressão. O conceito também propõe que a manifestação discursiva seja oferecida as mais diferentes vivências anti-opressão.

Mas quando uma pauta está em um debate em progresso, os outros discursos e as outras trajetórias não estão automaticamente e inflexivelmente anulados. Portanto, estas pessoas também falam e também devem se posicionar diante daquela pauta, mas reconhecendo que partem de um ponto de vista diferente.

O conceito e a ideia de lugar de fala, tal como estão sendo utilizados hoje, reduzem o avanço dos pensamentos construídos nos mais diversos movimentos sociais e reproduzem uma lógica de silenciamento contraproducente. Ainda sobre isso, gostaria de retomar o sujeito localizado como mais privilegiado e mais causador de todas as opressões e exemplificar a partir dele.

Acredito que muito dos movimentos reacionários de homens brancos que hoje surgem partem do equívoco com o qual olham e analisam os mais diferentes debates. A denominação de fenômenos como a heterofobia, o racismo reverso e a opressão dos homens capitaneada pelo Feminismo também se fundamentam nesse processo de silenciamento.

Não estou colocando homens brancos ou mulheres brancas enquanto vítimas, porque parte da reação ao localiza-los enquanto tais diz respeito a um processo inconsciente de se pensarem enquanto seres universais.

O que quero dizer é que a restrição que criamos em torno de nós mesmos por um uso mal colocado do lugar de fala reitera as ideias que já acreditamos e pode muitas vezes nos distanciar de uma desconstrução importante de ideologias opressoras e discriminatórias com pessoas que, socialmente falando, poderiam ser nossas opressoras. 

Agora que temos o poder da fala e da manifestação de nós mesmos nos mais diferentes espaços, é importante que o utilizemos com responsabilidade. A postura discriminatória e gratuitamente ofensiva não deve ser omitida. Contudo, toda possibilidade de diálogo que parte da curiosidade e de um desconhecimento estruturalmente formado tem de ser usado a fim de uma transformação política significativa dos sujeitos.

Para Saber Mais:

Ativismos e Neoativismos: da Efetividade aos Tiros Nos Pés, Juarez Silva Jr., Amazônia Real: https://amazoniareal.com.br/ativismos-e-neoativismos-da-efetividade-aos-tiros-nos-pes/

Djamila Ribeiro quebra a internet falando sobre Lugar de Fala, Saia Justa, GNT: https://www.youtube.com/watch?v=AINEmjM4Ki4

Lugar de Fala, esse incompreendido, Juarez Silva Jr., Amazônia Real: https://amazoniareal.com.br/lugar-de-fala-esse-incompreendido/

O caso de racismo no ônibus, a manchete do Correio Braziliense e as pérolas do racismo tácito no mundo da branquitude, de minha autoria, Pirata Cultural (Medium): https://medium.com/pirata-cultural/o-caso-de-racismo-no-%C3%B4nibus-a-manchete-do-correio-braziliense-e-as-p%C3%A9rolas-do-racismo-t%C3%A1cito-no-c5716709bfb8

Por um Conceito Antipredicativo de Reconhecimento, Vladimir Safatle, Lua Nova: Revista de Cultura e Política: http://www.scielo.br/pdf/ln/n94/0102-6445-ln-94-00079.pdf

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