Sem categoria

Medo e Dúvida

Em 'Medo e Dúvida, o co-fundador do Black Panthers Party (Partido dos Panteras Negras) reflete sobre as dificuldades e prisões mentais do homem preto norte-americano.

Co-fundador do Partido dos Pantegras Negras norte-americano que falece em 1989, Huey P. Newton escreve, em ‘Medo e Dúvida’, sobre as prisões mentais do homem preto norte-americano, em meio a reflexões que perpassam sua masculinidade e seu papel dentro da sociedade. Suas considerações, feitas à espelho do que o líder revolucionário enxergava na época, ainda são pulsantes na vida de homens pretos. Entre o medo, a vergonha e a dúvida, Huey pergunta: o que fez o homem preto para estar tão ferido?

Tradução e Arte por Emerson Soares

NOTA: Este texto não tem a pretensão de ser a melhor e mais finalizada versão de um texto original em inglês, tampouco busca desmerecer o trabalho complexo e cuidadoso da tradução. O objetivo final aqui é apenas de reflexão de temas e pautas pertinentes que circulam na vida de pessoas Pretas. Mais conhecimentos, ferramentas e acessos para o nosso Povo!

O homem negro das camadas socioeconômicas mais baixas é um homem negro que vivencia uma confusão. Ele enfrenta um ambiente hostil e não tem a plena certeza de que foram os seus próprios erros e pecados que atraíram a hostilidade social. Durante toda a vida, ele foi ensinado (implícita e explicitamente), que ele é uma imitação inferior da humanidade.

Enquanto homem, ele sente um vazio causado pela ausência dos aspectos que lhe tragam respeito e lhe tragam a sensação de compensação. Ele olha para o seu entorno na busca de algo que possa culpar por sua situação, mas uma vez que ele não é sofisticado devido a sua condição socioeconômica, e devido aos ensinamentos negativos vindos das influências parentais e institucionais, ele acaba culpando a si mesmo.

Na sua infância, seus pais o disseram que não ascenderam socialmente porque ‘não tiveram a oportunidade de serem educados (escolarizados)’ ou porque ‘não extraíram vantagens das oportunidades de educação que lhes foram oferecidas’.

Eles dizem aos seus filhos que as oportunidades serão para eles diferentes caso sejam educados e qualificados, mas comumente não se utiliza nenhuma outra ferramenta, além desse ocasional aviso – e, em muitas situações, nem mesmo ele –, para estimular a educação.

Pessoas negras, no geral, são grandes adoradoras da educação, até mesmo as pessoas negras de níveis socioeconômicos mais baixos. Contudo, concomitantemente, as pessoas negras sentem medo de se abrirem para a educação. Elas sentem esse medo porque se sentem vulneráveis ao imaginar que possam ter suas ‘impressões’ confirmadas – talvez, elas descubram que, ao fim das contas, não podem competir com estudantes brancos.

O homem negro diz a si mesmo que poderia ter feito muito melhor se realmente quisesse tê-lo feito. O fato é que, claramente, o acesso as oportunidades educacionais nunca foi uma realidade para pessoas negras de níveis socioeconômicos mais baixos, dado ao lugar social restrito a elas designado. Esta questão é um monstro de duas cabeças que assombra o homem negro.

Em primeiro lugar, o homem negro pobre não desenvolve a habilidade de lidar com os problemas socioeconômicos que o confrontam, e em segundo lugar, ele diz a si mesmo que possui a competência, mas que não se sentiu fortalecido o suficiente para adquirir as habilidades necessárias a transformação e manipulação de sua realidade.

Em uma tentativa desesperada de criar respeito por si próprio, ele pensa estar desamparado e, desta forma, ele nega a possibilidade da ausência de uma habilidade natural. Se ele abertamente se dispõe a descobrir as próprias habilidades, ele e as outras pessoas ao seu redor talvez percebam sua verdadeira personalidade – e este é o verdadeiro medo. Ele, então, se insere no mundo do invisível, mas não sem dificuldade.

O homem negro pode até tentar se tornar visível ao transformar o seu cabelo ou dirigir um carro grande que não pode financiar. Talvez ele seja pai de crianças ‘ilegítimas’ das mais diferentes parceiras para atestar a sua masculinidade.

Mas no fim, ele percebe que os seus esforços são em vão. A sociedade reage a ele como se ele fosse uma coisa, uma besta, uma não-pessoa; algo para ser ignorado ou humilhado.

Do homem negro, é exigido o respeito às leis que não o respeitam. É a ele solicitado o respeito a um código ético que atua sobre ele, e não por ele. Ele se sente confuso e está constantemente em um estado de raiva, de medo e de dúvida. Essa condição psicológica permeia todas as suas relações interpessoais, e altera suas percepções acerca do sistema social.

O seu desenvolvimento psicológico foi enclausurado prematuramente. Suas dúvidas se iniciam na infância e perduram ao longo de toda a sua vida. Os pais transmitem essa postura para seus filhos, e a vida em sociedade somente reitera o medo, a vergonha e a dúvida.

Na terceira ou na quarta série, o homem negro percebe que convive, na sala de aula, com crianças brancas. Quando é passada a classe exercícios de leitura, todos os estudantes negros se veem concentrados em uma mesa reservada para leitores lentos. Este é uma mensagem sutil do sistema escolar.

O que o professor ou a professora podem não perceber, entretanto, é que os estudantes negros podem passar a temer que ser ‘negro’ significa ser ‘burro’, e que ser ‘branco’ significa ser ‘inteligente’.

Estas crianças também não percebem que o incentivo que os estudantes brancos recebem nas suas respectivas casas é o que conta para a situação. É socialmente aceita a ideia de um papel inverso, em que as crianças negras exercem a função parental com seus pais. Esta é uma verdade para pessoas negras de níveis socioeconômicos mais baixos.

Com quem pode o menino negro se identificar? Enquanto criança, este menino não teve uma figura masculina permanente presente em sua vida que promovesse identificação. Enquanto adulto, ele não enxerga nada na sociedade com que ele possa se identificar e observar uma extensão de si mesmo.

Sua vida foi construída com base em desconfiança, vergonha, dúvida, inferioridade, inversão de papéis no seio familiar, isolamento e desespero. Ele sente que é algo menos do que um homem, e isso é evidente em suas afirmações: ‘O homem branco é O CARA, ele possui e sabe tudo, e o preto não é nada.’

Em uma sociedade na qual a validação do homem se dá de acordo com sua ocupação profissional e suas posses materiais, ele é desprovido destas posses. Ele não é qualificado o suficiente e, não raro, ocupa postos de trabalho precários ou está desempregado.

Muitas vezes, sua esposa (que trabalha como uma empregada doméstica, limpando a casa de pessoas brancas) é a provedora da casa. Ele é, desta maneira, visto como um inútil por sua esposa e por seus filhos. Ele é ineficiente tanto dentro quanto fora de casa. Ele não consegue sustentar ou proteger sua própria família.

Ele é invisível, é um nada. A sociedade não o reconhece enquanto homem. Ele é alguém que consome, mas não alguém que produz. Ele é dependente do homem branco (aquele que é O CARA), aquele que o auxilia a proteger a sua família, que lhe oferece emprego, lhe ajuda a educar suas crianças, e que se porta como a referência que ele tenta alcançar. Ele é dependente, e odeia o homem branco, e odeia a si mesmo. Quem é o homem negro? Ele é um adolescente, ou ele é o homem escravizado que costumava ser?

O que fez o homem negro para se sentir tão ferido?

Para Saber Mais:
Huey Newton: o Discurso Pró-LGBT do Partido dos Panteras Negras em 1970, tradução de César Fernandes, Insurgência:
http://insurgencia.org/huey-newton-o-discurso-pro-lgbt-dos-panteras-negras-em-1970/

Por uma Revolução Antirracista: Uma Antologia de Textos dos Panteras Negras (1968-1971): https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4292681/mod_resource/content/1/antologia_panterasnegras.pdf

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: