Por Ana Luiza Lima
Na zona leste de Uberlândia, onde pessoas marginalizadas travam uma batalha que perdura até a atualidade para transformar uma realidade amarga, Pedro Desprimor entra na luta contra a injustiça. Através da caneta e do papel, que juntos se tornam poesia, ele encontra sua arma secreta para bater de frente com a sociedade e reescrever histórias onde antes havia desesperança.

O poeta encontrou seu propósito na literatura por meio da educação popular em ONGs, educando crianças da periferia, tendo em vista que esse foi o território de sua própria origem. O início de sua trajetória remete ao momento em que a escrita e o rap nacional surgiram como salvação para ajudá-lo a interpretar suas vivências. “Eu me encontrei mesmo na poesia quando escutei algumas músicas do Racionais, em um período meio conturbado da minha adolescência. Escutando a música ‘Jesus Chorou’, eu percebi o quanto o Mano Brown, na letra, conseguiu traduzir meus sentimentos de ansiedade e busca por um padrão de masculinidade incoerente, que eu estava sentindo naquele momento. Quando ele disse que o homem pode chorar, é por aí que eu consegui me encontrar.”- recorda Desprimor.
Essa virada de chave foi o combustível para confrontar as barreiras de gênero e raça. O autor conta que já foi muito ridicularizado por escrever poesia, pois a sociedade exige que o homem, principalmente negro, performe uma masculinidade agressiva, intocável que esconde suas dores. Esse cenário gerou uma insegurança inicial, mas ao se permitir vivenciar momentos de vulnerabilidade, ele mudou essa realidade “Quando você aprende a se amar e, dessa maneira não mais se armar, você se torna revolucionário”, afirma Desprimor. Sua arte vem ao encontro com romper os pré conceitos de gênero e raça por meio do amor negro.
Em suas oficinas de escrevivência, o poeta tem como missão transmitir uma escrita diferente da tradicional. Ao apresentar o rap e o slam, ele oferece um caminho mais aprazível que vai além das figuras de linguagem, conectando-se diretamente com a visão de mundo dos alunos. A urgência em levar a literatura para as margens é amparada por uma realidade excludente: de acordo com o PIRLS, Estudo Internacional de Progresso em Alfabetização em Leitura, analisado pelo instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional(iede), apenas 26,1% dos estudantes mais pobres do Brasil alcançam um nível adequado de leitura. É contra esse apagão educacional que Desprimor atua, o que leva seus discentes a enxergarem no universo literário um refúgio.
É nítida a felicidade de Pedro ao ver que está conseguindo compartilhar com outros jovens da periferia o amor pela literatura que o salvou. Esse impacto se materializa em gestos cotidianos, como no bilhete de uma aluna, guardado com carinho, em que ela agradece por ele mostrar que a escrevivência pode ser cativante e que ela pode se tornar escritora igual a ele. Outro exemplo é o do aluno que levou espontaneamente à escola seu livro autoral, Lágrimas corridas de um poeta marginal, para ler nos intervalos e debater sobre versos que mudaram sua visão de mundo. Para o educador, se colocar como um autor local mais próximo dos meninos é vital. Na infância suas referências literárias negras eram apenas figuras distantes, alimentando a ilusão de que arte era apenas possível nos grandes centros.
Apesar do impacto positivo dessas ações, a realidade cotidiana impõe duras barreiras. Diante do peso da vida adulta e das inúmeras responsabilidades que vêm com ela, o educador relata que já pensou em abandonar a literatura. Em suas reflexões, ele cita o poeta Paulo Leminski para lembrar como a maturidade torna a arte um desafio. Esse desânimo ganha um peso ainda maior diante do problema social que ele tenta combater, ilustrado pelas estatísticas do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), que aponta que apenas 22% dos moradores de periferia chegam ao Ensino Superior. Essa realidade explica seu desgaste, mas apresenta o tamanho da vitória de cada aluno que subverte esse cenário. Por isso, enquanto existirem jovens que leiam seus versos e se identifiquem, sendo assim capazes de traduzir suas vivências no papel, ele não deixará a poesia.
Para ele, a infância é prioridade absoluta pois é nela que a revolução começa. “Quando digo que sou mais um canela cinza salvo pela literatura, é porque sei que existem outros como eu. Dar entrevistas, ou estar em palcos como do festival Timbre é muito significativo para mim. É uma realidade que eu nunca imaginei alcançar (…) Espero nunca me acostumar com esse nervosismo, porque é ele que me lembra o tamanho do meu dever de ocupar esses espaços.” declara o artista. O nervosismo dele nos palcos, como o do Festival Timbre, não é insegurança; é a consciência política de quem sabe que carrega uma multidão de outros poetas marginalizados que ainda virão e levarão a luta adiante.








Um comentário
Que texto Massa!