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Poeta Thata Alves lança jogo da memória para crianças inspirado em Orixás

Intitulado “Baoba é Memória” é alternativa à pais e crianças, além de quebrar o estigma da demonização das religiões de matriz africana.

A poeta Thata Alves está lançando seu primeiro trabalho lúdico e voltado ao público infantil: “Baobá é Memória”, um jogo da memória com cartas inspiradas em Orixás. O brinquedo é uma alternativa aos pais e crianças, para presentes em datas como o Natal e o Dia das Crianças. Além disso, também tem como propósito proporcionar o aprendizado sobre os Orixás de modo intuitivo e inconsciente pelas crianças. Thata é Abian no Candomblé, e por consequência, o jogo torna-se uma ferramenta para quebrar com o estigma da demonização das religiões de matriz africana. 

Thata Alves Foto: Edlaine Pereira
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“Eu com meu irmão ganhamos na infância uma Bíblia Infantil: que continha imagens de Jesus em versão de criança”, comenta Thata que também pontua sobre a ausência de mais referências infantis em possibilidades de consumo nos mercado, como os próprios brinquedos. No Brasil, existe a lei 10.639/03 que trata da obrigatoriedade do ensino da história da cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. “Pouco efetiva”, comenta Thata que tem como intuito com o jogo também fazer jus à essa lei, introduzindo os jogos em escolas. 

A poeta concedeu entrevista ao CP e falou sobre o jogo:

1- Como foi a construção desse jogo?

A inspiração vem deste lugar de compreender que já fazia um tempo que não comprava brinquedos aos meu filhos, que são gêmeos ou “Ibejis” como na linguagem Yorubá, e ao me organizar para dar algo à eles neste Dia das Crianças de 2020, vamos ao shopping, mas me frustro ao perceber que não há nenhum brinquedo com representatividade. Lembro de uma das crianças vizinhas à minha casa que sofreu muito preconceito das demais crianças por ser iniciada no Candomblé. Então unindo as duas questões, decidi buscar as imagens dos Orixás na internet, e fiz um jogo da memória provisório, com as imagens coladas em papelão. A partir deste primeiro jogo, comecei a brincar com as crianças e as lhe explicar um pouco das histórias em torno de cada Orixá, como venho aprendendo no Candomblé.

Algumas figuras do jogo abaixo:

Seria muita pretensão minha acreditar que todo o preconceito destinado às religiões de matriz africana fosse ser cessado somente a partir de um jogo da memória. Mas acredito que esse jogo possa influenciar com que as crianças tenham uma percepção menos pavorosa das religiões de matriz africanas. Temos de um lado o ensino da literatura grega nas escolas, algo tão distante da nossa realidade, da nossa cultura e até mesmo da nossa língua, em relação à vocabulário. E do outro, a filosofia africana é muito mais presente, mais rente aos nossos costumes, às nossas vivências, então a ideia é que elas caracterizem os Orixás de forma mais natural. E por isso penso em inserir esse projeto nas escolas, de acordo com a lei 10.639/03.

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2- Por ser um jogo de memória, acredita que isso pode abrir interesse para pessoas que não são de religiões de matriz africana terem maior conhecimento das crenças?

Este é um dos principais intuitos do jogo. Amplificação de conhecimento cultural, no que nos permeia enquanto afro-brasileiros. A intenção é que as pessoas quebrem esses estereótipos de demonização, e que compreendam o Candomblé, como uma filosofia de vida, já que não se restringe somente à religião, perpassando pela gastronomia; o ritmo, com os atabaques, entre outros aspectos. Além disso, o Candomblé é uma das religiões que mais aceitam a diversidade das pessoas, como os gays, as gordas, e inclusive as próprias crianças, em seus cultos e vivências da filosofia.

Foto: Edlaine Pereira
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3- Como você trata a questão das religiões com seus filhos?

Eu uso o termo “religião” para me referir ao Candomblé, pois é assim que lido pela sociedade de um modo geral, mas em verdade o Candomblé é filosofia africana. Mas minha Iya (Mãe de santo), Ana Rita Dias de Cássia, sempre fala que nós nunca precisamos nos “religar”, conforme o significado grego que origina a palavra “religião”. Isso porque a natureza é amistosa aos nossos dias, estamos intrinsecamente ligados ao Candomblé, pela filosofia de saudar os mais velhos, de cuidar da natureza. Então a mesma folha que meus filhos pedem licença ao Orixá Ossain (senhor das matas) para tomar um banho, é a mesma folha do chá, do tempero do macarrão, e por aí vai. Tiro muitas dúvidas sobre o Candomblé com minha Iya, além de tudo aquilo que também não é revelado pelos livros, dos quais lemos muitos. Então eu não preciso impor a religião aos meus filhos, eles aprendem por vivência, de forma natural. 

Valores africanos como a humildade, o respeito aos mais velhos, e a oralidade, fazem parte do conceito deste jogo. Outro estigma que ela deseja transcender a partir deste trabalho é o de “poeta periférica”. “Percebo que até em negociações de cachês com contratantes, quando colocamos nosso trabalho nessa caixinha, não somos tão valorizados quanto nossos próprios trabalhos merecem. Um artista contratado pela Rede Globo, que venha do Vidigal, não é lido como um artista periférico”, reflete a artista e afroempreendedora. 

Para 2021, a paulistana tem planos de lançar um novo livro, já que além de poeta e produtora cultural, é também escritora e autora das obras: “Em Reticências”, “Troca” e “Ibejis”. Além disso, também pretende comemorar os sete anos de “Sarau da Ponte pra Cá”, o qual ela é idealizadora; assim como também continuar com seu programa “Thata Troca” em seu canal do Youtube.

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