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Da 5 Blood é mais uma obra-prima de Spike Lee | Crítica

Na última sexta-feira foi lançado na Netflix a mais novo longa de Spike Lee, Destacamento Blood. Lee nos entrega o melhor que ele tem no novo filme.

Na última sexta-feira (12/06) foi lançado na Netflix a mais novo longa do renomado diretor, Spike Lee, Destacamento Blood. Dirigido por Lee e roteirizado me conjunto com Kevin Willmott, Danny Bilson, Paul De Meo, o filme logo virou assunto nas redes sociais, seja pelo seu conteúdo denso e direto, ou pelas misturas de técnicas usadas na obra.

O filme conta a história de quatro veteranos afro-americanos da Guerra do Vietnã, que retornam ao país em busca dos restos mortais de seu comandante caído, bem como do tesouro que eles enterraram enquanto serviam lá. O projeto do filme começou em 2013, foi engavetado e voltou a ser trabalhado, dessa vez com Spike Lee na equipe, após o sucesso de BlacKkKlansman (2018).

Percebemos que Spike Lee teve uma liberdade para dirigir o filme de sua maneira, em vários momentos vemos um Spike da “sua primeira fase”, que brinca com as formas de fazer cinema, te pegando de surpresa em vários momentos. Um exemplo disso é a mudança de formatos de tela durante o filme, começamos assistindo um filme no formato Cinemascope (a tela mais longa horizontalmente, comum nos filmes de faroeste), quando somos apresentados às cenas de flashbacks a tela muda para a proporção 3:4 (fazendo alusão ao tamanho das telas que eram usadas na época da guerra, simulando até a qualidade de imagem à época com efeitos), após os personagens entrarem na ‘aventura’ a proporção muda novamente para o widescreen (resolução mais comum que assistimos no cinema).

Sem apresentar nenhum personagem nos três primeiros minutos de filme, Lee já nos dá socos no estômago mostrando imagens de arquivo da época da Guerra do Vietnã e nos mostrando discursos de líderes negros, como Ali, Malcon X, Angela Davis, Bobby Seale e Martin Luhert King. Ele deixa claro o seu discurso que os Estados Unidos declarou guerra externamente ao Vietnã (consequência de uma Gurra Fria com a União Soviética) e internamente contra a população negra, onde ambos os povos sofrem até hoje por consequência desses atos.

Após os veteranos, Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.), se encontrarem vão se reunir em um bar local. Nessa cena entra em pauta os discursos da união da comunidade negra (que permeia durante o filme), das consequências psicológicas que os veteranos afro-americanos levam da guerra (um dos tópicos principais do personagem do Delroy Lindo, destaque em atuação do longa) e tem até tempo de “zoar” com negros que votaram em Trump. É interessante (não de uma forma alegre) ver como acontecimentos e debates de 40 anos atrás ainda conversam e se assemelham com os acontecimentos e debates atuais, encontrado várias relações da abordagem do filme e os recém-protestos do movimento “BlackLivesMetter.

Apesar do pouquíssimo tempo de tela, Norman (Chadwick Boseman) é peça central da trama, já que são os restos mortais dele que os veteranos vão encontrar e ele também era considerado o líder do grupo 5 Bloods. Vemos o personagem apenas nas cenas de flashbacks, cenas quais Spike Lee teve uma atitude ousada de usar os mesmos atores para seus respectivos personagens tanto na versão atual quanto na versão mais jovem, sem nenhum tipo de maquiagem ou edição gráfica para rejuvelhece-los.

Podemos dizer que Spike é ousado durante todo o filme, rompendo as normas estabelecidas pela narrativa clássica. Há uma constante quebra da narrativa, trazendo em imagens e sons não diegéticos, mas que conversam com o que está sendo falado, como fotos de personalidades históricas que os personagens citam, e por muitas vezes, não sabemos quem são apenas por nome. Outro momento bastante interessante quem rompe com a narrativa do filme é quando Paul se separa do grupo e ao seguir sozinho ele quebra a quarta parede e fala diretamente para câmera (ou seria para quem está assistindo?), esse momento claramente faz alusão à sua instabilidade mental, já que fora mencionado várias vezes que ele falava sozinho, mas serve também como um momento lúdico de um discurso de resistência da população negra (momento que lembra cenas de seus primeiros filmes, como Ela quer tudo e Faça a coisa certa).

Destacamento Blood nos traz o melhor de Spike Lee, uma direção autoral, uma forma de fazer filme que não agrada a todos acostumados com um estilo mais “comercial”, um discurso direto e por muitas vezes pesado de ser digerido, um filme que mesmo se tratando de uma realidade afro-americana, atinge todo o público negro, porém, por conta disso também, o filme pode ser “esquecido” na temporada de premiações, mesmo tendo uma recepção tão boa entra os críticos (já vimos isso acontecer com o próprio Spike em Faça a coisa certa). O longa está disponível na Netflix e merece ser assistido, mesmo que gere um certo desconforto, é uma obra para ser prestigiada, estudada e debatida.

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