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A Antropofagia da Estética da Fome do Negro Drama

A Estética da Fome que nos traz através da antropofagia a nossa nutrição cultural e a consciência negra se torna o prato principal a ser servido ao nosso povo afro-brasileiro.

Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entendem. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come, mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. (ROCHA, 1981, p.31)

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos.

O império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.

A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas das saudades universitárias. (ANDRADE, 1970, p.9)

Glauber Rocha no Manifesto Uma Estética da Fome busca desarraigar da violência o seu conceito opressor para apontar que essa violência para nós latinos tem que ser mais que um substrato na relação colonizador-colonizado e não essas correntes que acorrentam as mentes, mãos e pés dos brasileiros, nos deixando sem alimento no prato e submissos a cultura do patriarcado do velho continente. E para Glauber, a Estética da Fome é um antídoto natural que é criado a partir da própria violência provocada por causa da fome, da luta por sobrevivência, da busca da existência e pela força criada pela resistência na luta pela consciência do povo latino. Ou seja, a fome não é esse “surrealismo tropical” e muito menos tem que ser uma vergonha nacional para o brasileiro.

Não permitir que a violência dessa fome oprima a consciência da própria existência é a missão do Manifesto Estética da Fome. O Manifesto tem como intenção não só negar a cultura dominante diante desse dualismo, mas de mostrar para o próprio Latino-americano a sua fome e que a transcendência e superação dessa fome é alcançar essa liberdade que o latino tanto sonha, pois é a partir da negação da cultura do opressor que se dará a liberdade diante de “Uma Estética da Fome”, como propôs e defendeu Glauber Rocha a frente do Cinema Novo. O filósofo brasileiro modernista Oswald de Andrade propôs o conceito Antropofagia, como um exercício filosófico que o brasileiro tem que praticar, para conseguir romper com os conceitos filosóficos e culturais que impendem à manifestação e valorização da produção artística, intelectual e cultural brasileira. 

No Manifesto da Poesia Pau-Brasil e Manifesto Antropófago, ele apresenta uma proposta de transcender a cultura dominante através da superação da violência do opressor através da Antropofagia. E na sua proposta filosófica Oswald nos apresenta uma Antropofagia como aceitação da própria fome e primitivismo cultural, e na busca de uma superação a ser realizada, um retorno ao primitivismo para alcançar uma liberdade intelectual e cultural diante da cultura dominante.

Um movimento contra o eurocentrismo que nasce da própria miserabilidade, na busca da liberdade cultural através da própria escassez deixada pela violência do opressor. Percorrendo o caminho da fome deixado pelo colonizador e buscando o sonho da liberdade em um movimento de superação. O campo da violência se tornará uma proteína que possibilitará o colonizado, se manifestar não só primitivamente, mas livremente ao ponto de conseguir superar a cultura dominante eurocêntrica, através da própria possibilidade de contorno sociocultural e intelectual. Superando o seu próprio processo histórico cultural antropológico, ou seja, se livrar da perseguição da eugênia branca contra a sua etnia.  

E nesse caso a arte é um caminho seguro para essa libertação cultural e uma linguagem estética capaz de conduzir a essa transcendência e transformação da consciência sociocultural. O colonizado não mais ficará a margem de uma concepção já imposta e definida como um “padrão de gosto” já definido pela cultura do opressor, que provoca ao oprimido um complexo de vira-lata e desvalorização cultural. E a antropofagia proposta por Oswald de Andrade traz um mecanicismo de supressão que tem como objetivo ser uma defesa sociocultural, tendo como nutrição esse sonho de se libertar dessa diáspora, o colonizado se alimentará dessa opressão que o oprimi, movimento reflexivo que parte dessa dialética provocada pela violência do colonizador contra o colonizado. Pois como foi definido por Rocha (1981, p.31):

mendicância, tradição que implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialista com fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto

De acordo com Glauber essa “tradição” eurocêntrica nos coloca nessa situação de mendicância, mas essa posição é uma fatalidade justamente causada por essa opressão colonialista, e a chave contra esse ufanismo melindroso opressor, advém desse dualismo provocado pela relação colonizador e colonizado que deixa um rastro de violência. Entre esses rastros de violência, a fome cultural será o próprio alimento capaz de minar as próprias estruturas, partindo do próprio primitivismo causado pela violência do opressor, que é o cenário da miserabilidade sociocultural que está engendrado nas culturas latinas como um câncer. A superação é exatamente não se intimidar ou se envergonha da própria miserabilidade causada pelo colonizador. E não mais mendigar piedade do colonialista para não ser mais enganado pela cultura do opressor, mas construir escolas criando professores, de construir casas oferecendo trabalho e ensinar o ofício buscando alfabetizar principalmente o analfabeto.

O Manifesto Estética da Fome foi elaborada e escrita por Glauber Rocha junto ao extenso e necessário debate em torno da libertação das civilizações colonizadas na África, como destacou Tereza Aventura no seu livro A Poética Polytica de Glauber Rocha, no livro Tereza destaca a influência de Frantz Fanon nos trabalhos de Rocha. Na obra Os condenado da terra, de Frantz, o psiquiatra e filósofo aponta a violência com um sentido mais amplo que uma ação irracional. É a violência o meio qual o colonizador usa para impor a sua força e imposição cultural e é com violência que o colonizado vai conseguir se libertar dela para Fanon.  E para Glauber, essa violência está contida na própria fome, que pode ser uma espécie de proteína catalisadora da relação colonizador-colonizado, que sustenta em si mesma essa enunciação do dualismo da revolta do oprimido. Não existindo uma base que possa possibilitar uma cultura sólida que poderia intermediar o atrito colonizador-colonizado, a neutralização dos conflitos não ocorrerá e a relação conflituosa se dará pela força. E essa  antropofagia pensada por Oswald que busca alcançar essa liberdade cultural, se encontra na força da estética da fome qual Rocha introduziu nesse conceito de violência, a superação não acontecerá através da paz, mas da violência superada com a própria violência do opressor. Entender o nutriente dessa fome para o colonizado é fator fundamental para compreender o metafórico fantasioso no neo-surrealismo trabalhado por Glauber ao pensar e realizar o Cinema Novo. Para ele a ideia de violência enquanto forma estética irá valorizar uma linguagem que possivelmente não se negará na cultura dominante. A magia dessa fantasia deve se referenciar na sublimação da fome como o caráter trágico e o sonho com o caráter cômico, que ambos potencializados na mesma substância em arte, são capazes de alcançar o nível libertário de uma civilização.

A fome para Glauber Rocha é pronunciada como revolucionária por que transpõem mais que sentimento morais e políticos para o campo estético no Cinema Novo. Ela é revolucionária devido a uma linguagem reflexiva e critica a cultura dominante. Assim como Oswald de Andrade, Glauber fantasia a utopia de ter não só uma arte independente, como uma própria liberdade intelectual das convenções e padrões linguísticos da cultura dominadora. Ou seja, a fantasia em torno da proposta filosófica de Glauber que é materializada na estética da fome, tem como fundamentos construir princípios mais que substanciais que sejam similares, ou que superem a cultura dominante a partir do próprio miserabilismo cultural. A proposta de Glauber está relacionada com o entendimento da fome como violência causada pelo o eurocentrismo, à superação da miserabilidade social é reconhecer e aceitar a necessidade de se libertar da cultura do opressor através da antropofagia que se manifestara em sua forma primitiva, mas revolucionária e criadora na busca da linguagem própria. A mística e a razão são para Glauber pólos inseparáveis da cultura do Terceiro Mundo, pois é o conteúdo da cultura do Terceiro Mundo que ele irá produzir em seus filmes como forma de superação cultural. Para Rocha (1981, p.30) ao esclarecer de qual maneira o miserabilismo foi registrado no catálogo da estética da fome, “que antes escrito pela literatura de 30, foi fotografado pelo cinema de 60; e, antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político.”, nos dias atuais acrescento nessa catalogação as músicas afro-brasileiras como arte atemporal, o samba no passado, o Rap e o Funk como movimento contemporâneo, ambos os estilos da mesma vertente da luta negra dos estadunidenses. Que aqui no Brasil deu origem a esse movimento de luta através de estilos musicais que representam a superação do grotesco do miserabilismo periférico transcendido em arte, uma superação da violência que transcende em grito de liberdade do oprimido. Que busca na manifestação do coletivo social um conceito de liberdade na composição musical, uma estética própria formada com uma linguagem cultural antropofagiada. Assim como no Cinema Novo que teve a violência antropofagiada e transcendeu na Estética da Fome no Cinema Mundial.

A violência primitiva, a antropofagia descrita pelos vanguardistas da Semana da Arte Moderna, novamente serviu como antídoto da nossa terra, se manifestando nesses estilos musicais que denunciam o miserabilismo herdado pelo paternalismo europeu, como podemos observar e refletir sobre a violência antropofágica da estética da fome manifestada na música Negro Drama do grupo musical brasileiro Racionais MC`s, fundado em 1988, grupo musical que nos traz a tona uma reflexão mais que filosófica ou humanitária. O grupo denuncia a própria realidade social, o lado B do vinil, aquele que passa longe do padrão de gosto da indústria cultural. Mas é o lado B, o lado independente do grupo que lhe permiti ser original e mostrar qual é a realidade por dentro do “belo” de quem está do lado de cá da ponte, do muro dos guetos na raiz da estética periférica brasileira.

Faixa do álbum “Nada Como um Dia Após o Outro Dia

O negro drama também é a mulher negra drama, a “dona Ana, sem palavras, a senhora é uma rainha, rainha”. O negro drama é esse herói que o brasileiro tanto sonha, mas só porque ele é afrodescendente ele sofre racismo e é condenado a ter que ser “aquele louco que não pode errar”, obrigado a renascer das cinzas todos os dias firme e forte, ele está fardado a passar tudo isso por causa da sua origem negra. Mas esse negro drama encontra a sua formula mágica da paz através do flow do RAP superando toda a trama do racismo estrutural contra ele e toda fome cultural, antropofagiando esse miserabilismo social provocado pela violência do opressor e transformando ela em sua voz e grito de liberdade. E assim como o negro drama não podemos aceitar o racismo estrutural velado que mantém o povo preto, latino, preso nas correntes da fome.

Estamos em um estágio de civilização que não dá mais para aceitar a perpetuação do racismo e que o nosso povo esteja condenado a passar tanta fome, o afro-brasileiro tem que nascer cada dia com a consciência negra na ponta da língua e que não é vergonha se nutrir da fome deixada pelos colonizadores.

Que a nossa cultura é a da superação e infelizmente não só a da valorização. Ao ouvir a música Negro Drama dos Racionais, sinto-me dentro do Cinema Novo de Glauber, mas ali eu sou o próprio “Negro Drama”, pois sei que nos “lixões nascem flores”, mesmo que muitas outras murcham antes mesmo do seu desabrochar e porque é preciso saber o que é ser afrodescendente em nosso país, como navegar é preciso. É preciso pensar o conceito da fome como superação para todo o povo preto, a nossa liberdade passa por essa superação de nutriente para sobreviver, e a Antropofagia, é o nosso banquete com tempero de urucum. A própria fome se torna a nutrição e a consciência negra é o prato principal a ser servido ao nosso povo afro-brasileiro.

Referência Bibliográficas :

ANDRADE, Oswald de. “Manifesto da poesia pau-brasil”, Do pau-brasil à antropofagia e às utopias. Oswald de Andrade – Obras Completas, volume 6. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970. Originalmente no Correio da Manhã, em 18-3-1924.

Ventura, Tereza. A poética de Glauber Rocha/ Tereza Aventura. – Rio de Janeiro: Funarte, 2000;cit.,pág.204

ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo – Rio 1981: Alhambra/Embrafilme.

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