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“A carne do negro é a mais barata do mercado.” por Mauro Aniceto

O escritor do CP falou um pouco da sua visão sobre a desvalorização do povo preto no Brasil!

Em tempo de discursos fascistas, não basta só não ser racista, temos que ser antirracista quando a carne negra é a mais barata do mercado. Não podemos nos calar diante do banzo que sustenta o racismo estrutural brasileiro. O racismo é crime além de ser um ato desumano que fere os princípios da dignidade humana. Essa consciência racial da sociedade contemporânea aponta para uma conscientização que nega que exista seres humanos superiores e outros inferiores a esses, “sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição” como foi proclamado na declaração universal dos direitos humanos. Racionalização humana alcançada por longos anos e anos de ações desumanas que distinguia uma diferença entre seres humanos superiores e outros em inferiores, como por exemplo: a sociedade grega escravagista, e a medieval, que tem na base da pirâmide econômica, a servidão; assim como o período colonial brasileiro que foi escravagista baseado na escravidão da Grécia Antiga, tendo a servidão como a classe trabalhadora que sustentava a sociedade. E essa servidão aqui no Brasil era forçada contra povos originários trazidos da África e povos originários da própria “América”. Ou seja, sociedades que acreditavam que havia seres humanos, como causa eficiente para a causa final de outros seres humanos. Um indivíduo que de certa maneira estará fardado a servir a vontade de alguém, que por sua vez, esse “alguém” será a causa final da sua existência. Esse “alguém” é aquele que comanda a produção de alguma coisa, em detrimento de seu próprio desejo e vontade. E quem comanda a produção de alguma coisa é chamado de senhor, senhores que se colocam como “causa final” desses seres humanos que são colocados como causa eficiente, os escravos.

Uma eugenia que propõem que exista um senhor e seu servo, um ser humano superior e outro inferior por questões genotípicas, fenotípicas, religiosas e espirituais. Quando um negro sofre injuria racial ele está sendo colocado nessa posição de ser humano inferior a outro por causa de sua cor. O racismo, essa ação discriminatória que é praticada contra um grupo de pessoas motivado por causa da cor, gênero, posição social, ou mesmo por simples estupidez é um câncer maligno que tem que ser combatido, não só com amor, ou flores como quimioterapia. Mas com violência como pontua Frantz Fanon na sua obra “Os Condenados da Terra“, quando ele conceitua que o processo de “descolonização é sempre um processo violento”, pois a descolonização tem como princípio fundamental a substituição de uma espécie de seres humanos por outros. E essa simples troca só é possível através da violência, pois os racistas não vão aceitar descolonização dessa cultura desumana com benevolência. E em nosso país, o racismo além de ser estrutural e velado, ele afeta exatamente a população mais pobre que vive muitas das vezes em condições de vulnerabilidade social total. Sofrem esse banzo do racismo estrutural sem perceber a injuria racial que sofrem diariamente em suas vidas. Outro indicativo desse racismo estrutural brasileiro e um ponto de analise relevante nesse texto.

É o racismo que afeta a população negra e a mais pobre do nosso país no mercado de trabalho, onde podemos perceber o porquê que esse racismo e estrutural ao analisarmos qual o espaço que o negro está ocupando nesse mercado de trabalho e qual vai ser a sua porcentagem mínima que vai receber pela sua força de trabalho. Em média, os negros têm os menores salários, sofrem mais com o desemprego e são minorias entre os que completam o ensino superior, a população negra é maioria entre os que recebem até um salário mínimo, assim como são maioria entre aqueles que nem um salário mínimo por mês, conseguem receber para sobreviverem. Assim como essa população negra é maioria entre aqueles que estão desempregados e sem alfabetização em nosso país. O mercado de trabalho pode até ser exigente, mas não pode ter cor, gênero ou classe social.

Os cargos têm que serem preenchidos democraticamente e sem ser com aquele grau de quem indica, ou pela meritocracia que sustenta esse banzo do racismo estrutural brasileiro. A remuneração também tem que ser democrática, principalmente entre gêneros, com zoom da equidade sobre as mulheres negras que mais sofrem com esse racismo estrutural. Isso não é papo de esquerdista, é uma defesa do princípio básico dos direitos fundamentais que garantem a dignidade humana. Ninguém é melhor ou pior do que alguém perante o principio básico de igualdade e equidade humana. Os negros, aí não só em no nosso país, mas no mundo inteiro, precisam e devem ter o seu espaço respeitado e valorizado no mercado de trabalho. E reconhecer o valor dos negros, não se trata de uma guerra de cor, mas de evolução humana, tanto emocionalmente, quanto racionalmente e espiritualmente. Poderia lhe dar os parabéns por não se achar menos ou mais racistas por entender isso, mas isso não é status para se comemorar, o banzo do racismo é uma doença social e vegetativa. E não só do individuo que prática, o racismo é estrutural propositalmente e velado praticado como no tráfico negreiro, pois muitas das vezes esse racismo é praticado por negros que se colocam no lugar do branco e não dos negros, e muitas das vezes, agem como Capitão do Mato perseguindo seus irmãos de cor, sendo o racismo por tanto uma patologia social que tem que ser combatida com antirracismo.

https://www.vice.com/pt_br/article/wj3bey/por-que-mulheres-negras-ganham-menos-que-qualquer-pessoa

Por isso respeito o banzo de cada negro, quando um dos meus irmãos quebram as correntes, dou um belo sorriso e mostro os dente. Pois a carne negra não pode continuar sendo a carne mais barata do mercado de trabalho. As pretas e os pretos precisam viver a sua liberdade mais do que sonhá-la economicamente, politicamente, fisicamente e principalmente emocionalmente. E em pleno século XXI não podemos sustentar na sociedade crença cultural que defenda que existam seres humanos superiores e outros inferiores, que por natureza, esses têm que serem causa eficiente da vontade daqueles que se colocam como superiores e com direito de escravizar outras vidas por se acharem causa final desses.

Mauro Aniceto
Negro Bacharel em Filosofia pela UFOP

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