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Insubmissas Escrevivências

escrevivências: histórias de negação, afirmação, que buscam sonhos questionadores, a revisão de papeis sociais, histórias que são contadas com coragem, marcadas pela insubmissão.

Por Dandara Tonantzin*

No meu primeiro texto para o Cultura Preta, peço a benção das mais velhas e das mais novas para anunciar, aqui, as escolhas teóricas que farei para escreviver no portal.

Precisamos de combustível altamente inflamável para escrever sobre temáticas presentes nas histórias vividas, colhidas, criadas e reinventadas. Formular saberes pautados no feminismo, na negritude, na igualdade, justiça e paz. Saberes marginais, decoloniais e rebeldes. Que nos levem para o centro, bem de baixo do holofote, com papel de protagonistas.

Conceição Evaristo, uma das maiores escritoras desse século, chama de escrevivência essas histórias de negação, afirmação, que buscam sonhos questionadores, a revisão de papeis sociais, histórias que são contadas com coragem, marcadas pela insubmissão.

Conceição Evaristo

É, portanto, aquilo que nos atravessa, dilacera a pele, faz o coração pulsar e que precisa ser dito. É a escrita de um corpo, de uma condição, de uma experiência negra no Brasil que interroga, resinifica. Para Conceição Evaristo, quando as mulheres negras escrevem se adquire um sentido de insubordinação:

“Talvez, estas mulheres (como eu) tenham percebido que se o ato de ler oferece a apreensão do mundo, o de escrever ultrapassa os limites de uma percepção de vida. ”

Significa negar aquele lugar do quartinho da empregada como o único possível.

Significa romper com os silenciamentos e tentativas constantes de invisibilização. Romper com a colonialidade que recria condições múltiplas de subalternidades. O racismo, o machismo, o patriarcado, a miséria, a violência, a fome, as ausências que nós mulheres negras vivenciamos todos os dias, nos dá uma capacidade única de escrita.

É como usar lentes côncavas e convexas para descrever uma cena, um jogo de tabuleiro.

As histórias são colhidas em nossas andanças, mas também chegam até nós e nos surpreendem. É o desejo de falar e a necessidade de ouvir agindo para fazer brotar uma necessidade de fala e de audição.

A experiência da oralidade é motriz nas nossas histórias!

Para escreviver precisamos das sabedorias ancestrais acumuladas nas vivências. Aquela que produz contágios incontroláveis. Escreviver é também interligar histórias, costurá-las por remissões e jogos textuais. Escrever e viver não são coisas diferentes! É preciso comprometer a vida com a escrita ou é o inverso? Comprometer a escrita com a vida?

Gloria Anzaldua, em uma espécie de carta-manifesto para mulheres escritoras do terceiro mundo, me contempla muito bem quando diz:

“Escrever porque não tenho escolha. Escrever para manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho mais medo ainda de não escrever.”

Por isso, escrevam! Ainda que com erros gramaticais, com as críticas, com a censura. Escrevam. O lugar da produção do conhecimento não é destinado a nós, por isso incomoda tanto. Fugimos da rota mecânica, do previsível. No mestrado tenho feito isso, escrito a partir das nossas produções, tenho resgatado o que mulheres negras formulam e são sistematicamente invisibilizados pela academia. Acredito na função da literatura produzida por nós, escritoras negras, função essa que nos dizeres de Conceição Evaristo é:

“a nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para ninar os da casa grande e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”.

*Dandara Tonantzin é Pedagoga pela UFU, Mestranda em Educação na UFMG, pesquisa Ciberfeminismo Negro e as Escrevivências. Militante do movimento negro, ativista e filha de Oyá.

2 comentários

  1. DANDARA, fico tao grata a DEUS, por ter gente igual a vc ,aqui na terra,,e sinal que devemos acreditar na pessoas,,que o mundo tem soluções. Continue, nao pare!! Sou tua fã!! Bjs

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