Escrito por Vitória Pereira
Se homem não chora, será ele um novo fenômeno a ser estudado? Se os bebês nascem chorando, mas, ao crescer, são ensinados a não chorar nem demonstrar seus sentimentos, será que descobriram a cura para a vulnerabilidade? Homens pretos realmente não choram ou apenas foram ensinados, desde cedo, a suportar a dor em silêncio? O impacto da discriminação, da violência e da marginalização provoca um adoecimento mental profundo e silencioso na população negra. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, aproximadamente 4.500 homens negros morreram por suicídio no Brasil, representando cerca de 75% dos suicídios masculinos registrados no país.

Afinal, o que é ser homem? A construção de uma criança preta para se tornar um homem na vida adulta é atravessada por diversos fatores: a violência, a vulnerabilidade econômica e social e a desigualdade no acesso a oportunidades. Entre os primeiros ensinamentos está o de sobreviver, a qualquer custo, em uma sociedade brasileira construída sob o sangue preto e indígena. Esses meninos não foram ensinados a sentir. Mesmo quando o sentimento existe, ele precisa ser escondido. Quantas vezes você já ouviu ou presenciou frases como: “engole o choro” ou “não chora, você é homem”?
Se, desde a infância, foram ensinados a reprimir emoções e a manter uma postura inabalável, a construção do homem preto na sociedade também passa pela ideia de um corpo que tudo suporta, herança direta de uma história marcada pela escravidão. Não se trata apenas de um comportamento individual, mas de uma estrutura que, por gerações, condicionou homens negros a sobreviverem antes mesmo de poderem sentir. O choro foi silenciado, a dor invisibilizada e a vulnerabilidade transformada em fraqueza, quando, na verdade, ela sempre fez parte da condição humana.
Para o psicanalista Fausto Netto, a importância de conversar e verbalizar os sentimentos também é uma construção social, e as experiências da infância deixam marcas que se refletem na vida adulta.
“Você vai encontrar pessoas que conseguem verbalizar seus sentimentos e suas frustrações de maneiras diferentes. Homens brancos, muitas vezes, conseguem fazer isso com mais facilidade, não porque sejam melhores do que os homens negros, mas porque, dentro desse sistema, a população negra sequer foi escutada. Por isso, existe tanta dificuldade até mesmo para compreender e nomear os próprios sentimentos.”
Homens negros apresentam histórico elevado de adoecimento emocional, porém são minoria nos consultórios. A ideia de que adoecer é sinal de “fraqueza” impede a busca por apoio precoce, apesar do debate sobre saúde mental ter avançado nos últimos anos, para a população preta a psicoterapia ainda é uma resistência ligada à visão de que “terapia é coisa de erudito/coisa de rico”.
Um estudo do Check-up de Bem-Estar de 2025, Vidalink, revela que 42% dos jovens negros não conseguem cuidar da saúde mental entre jovens pretos e pardos de 18 a 28 anos, quase metade relata não conseguir acessar práticas ou serviços de cuidado em saúde mental, seja por custo, falta de acesso ou ausência de acolhimento.
Afinal, qual é a importância do Estado e da inclusão da psicologia no cuidado com a população negra? Em entrevista ao Cultura Preta, Yago Rezende(23) relata os desafios que enfrentou até conseguir acesso ao tratamento em saúde mental:
“Eu cresci achando que não precisava cuidar da minha saúde mental, porque, se eu tivesse tudo, não adoeceria. Mas não foi isso que aconteceu. Eu me vi perdido. Na busca por tratamento, o SUS pôde me auxiliar, mas existe um abismo muito grande. Primeiro, há uma longa espera até você conseguir chegar à terapia. Depois, há um número reduzido de profissionais. E, quando a gente finalmente chega lá, não é como esperava. O profissional sequer olhou nos meus olhos. Como ele poderia me ajudar a encontrar os rumos da minha vida?”
É nessa perspectiva que o psicanalista Fausto Netto também reforça a importância de o profissional olhar para além da própria vivência e reconhecer o lugar que ocupa na relação com o paciente: “Ter alguém com uma escuta qualificada é importante, faz diferença. Todo mundo quer aprender a falar melhor, mas ninguém quer aprender a escutar melhor.”
Em entrevista, o psicanalista também destaca a importância da psicologia, da psicanálise e de outras abordagens terapêuticas reconhecerem, antes de tudo, a trajetória e o contexto social do sujeito. Para ele, marcadores como raça, classe, território e as experiências de vida não podem, em hipótese alguma, ser desconsiderados durante o processo de cuidado e tratamento.
Dizem por aí que homens pretos não choram, mas foi sob muito choro que chegaram até aqui. Será que não viram ou escolheram inventar essa ideia? Dizem por aí que pretos são mais fortes. Será que ficaram mesmo ou só esconderam suas fragilidades? Se o sentir é o que nos humaniza, tornemos todos os homens pretos humanos também.




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