Escrito por Tamy Reis

A nova geração da música brasileira tem me chamado atenção justamente pela coragem de experimentar. E eu acho muito interessante perceber como os artistas estão cada vez menos presos a rótulos e mais conectados com a própria identidade sonora. Ao conversar com nomes da cena atual, fica claro que existe um movimento muito forte de resgatar essa pluralidade que sempre fez parte da música brasileira.

Tamy Reis Foto: Maria Paula

Para o cantor Maui, essa liberdade não é exatamente uma novidade, mas uma retomada de algo que sempre existiu na nossa cultura. No álbum “Melodia&Barulho”, o artista mistura R&B, funk, pagode, afrobeat, drill e grime para construir uma sonoridade que traduz justamente essa pluralidade da música brasileira contemporânea.

“A música brasileira sempre foi muito plural. Se a gente olhar para os grandes artistas da nossa história, eles exploravam muitas sonoridades. Acho que agora os artistas estão entendendo que um tipo de arte só não dá conta de quem a gente é hoje.”

Maui Foto: Isa Costa
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Ele também acredita que essa mistura nasce de forma muito orgânica dentro da vivência artística e cultural da nova geração. “Todo mundo escuta de tudo, faz de tudo e vive muitas coisas ao mesmo tempo. No meu trabalho isso veio muito das festas, dos DJs, dessas misturas acontecendo em tempo real. Eu tentei traduzir isso no meu disco.”

Ao mesmo tempo, fazer algo fora da curva ainda pode gerar desconforto dentro da indústria musical. E talvez não necessariamente pela novidade em si, mas pela dificuldade que o mercado tem em lidar com aquilo que ainda não consegue catalogar ou transformar rapidamente em produto.

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“O mercado não se assusta com o que é diferente quando aquilo é bem executado. Pelo contrário, ele olha com curiosidade porque sabe que as próximas tendências nascem no underground”, afirma Maui. “O problema é que muitas vezes existe um olhar muito mais interessado em extrair aquela estética do que fortalecer os artistas que construíram aquilo.”

Essa sensação também aparece na visão do duo YOÙN, formado por Shuna e Gian Pedro. Para eles, existe uma abertura maior para novas sonoridades, mas ainda há muitas barreiras quando algo foge completamente do padrão. “O mercado é como uma máquina padronizada. Ele não lida bem com novas combinações. As novidades acabam ficando nichadas e só chegam nas massas quando viralizam ou quando alguém muito grande abraça aquilo.”

YOÙN Foto: @diegoruahn
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E talvez uma das maiores dificuldades esteja justamente na comunicação. Quando um artista cria uma identidade muito própria, ele também precisa ensinar o público a entender aquele universo.

“A maior dificuldade é comunicar isso de um jeito que as pessoas entendam”, explica Maui. “Quando você trabalha com uma sonoridade mais tendência, o público já conhece aquele formato. Mas quando você propõe algo novo, você precisa educar as pessoas para aquilo. E isso exige tempo, estratégia e paciência.”

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O YOÙN também fala sobre o desafio de sustentar artisticamente uma proposta diferente dentro de um mercado tão acelerado. “Acreditar no que você está fazendo como ninguém é o primeiro passo. Porque quando você traz algo fora da tendência, você precisa fazer as pessoas acreditarem em algo que ainda não tem referência.”

Outro ponto inevitável hoje é a pressão das redes sociais. A lógica do viral acabou influenciando diretamente a forma como muitos artistas pensam música, lançamentos e até construção de carreira.

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Para o cantor Ryan Fidelis, existe uma pressão clara para se encaixar no que viraliza, mas ele acredita que o cenário também está mudando. “Hoje existe muita música descartável, que viraliza por dois meses e depois desaparece. Mas eu sinto que também está voltando uma vontade de criar projetos mais profundos, discos com conceito, músicas que realmente preencham as pessoas.”

Ryan Fidelis Foto: @igorreis

Ryan também acredita que os artistas de hoje possuem mais caminhos para construir suas carreiras sem depender exclusivamente das fórmulas tradicionais da indústria. “A internet é muito importante, mas ela não precisa ser o único caminho. Acho que hoje a gente consegue criar comunidade, encontrar nichos e fazer a música chegar nas pessoas de outras formas também.”

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E talvez seja exatamente isso que esteja mudando o jogo: a possibilidade de existir fora da fórmula pronta. A nova geração parece menos preocupada em caber dentro de uma única estética e mais interessada em construir narrativas próprias, misturando referências, gêneros e experiências sem medo de experimentar.


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