Por Vitória Pereira

Há artistas que contam histórias. Outros, que as traduzem. Arthur Lopes parece fazer outra coisa: ele atravessa. Conhecido como Poeta Visual, o artista não se limita a enquadrar imagens -ele constrói sensações. Sua obra não pede explicação imediata; pede presença. Talvez por isso, ao falar sobre seu processo, ele não recorra a fórmulas ou referências externas com a urgência esperada do audiovisual contemporâneo. Em entrevista exclusiva ao Cultura Preta, Poeta Visual fala sobre seu trabalho mais recente, no qual assina, ao lado de Willy Hajli, a direção do filme que celebra os 10 anos de Castelos & Ruínas, marco do rap nacional de BK’.

Arthur Lopes Foto: Fernanda Opitacio @feeshots

“Eu preferi olhar pra dentro”, afirma. É nesse território  entre memória, ausência e desejo que sua estética ganha corpo. Na direção do filme, Poeta constrói uma narrativa que ultrapassa a trajetória de BK’. O que se revela é um entrelaçamento entre a história do artista e a sua própria, entre o íntimo e o coletivo, entre aquilo que se vive e aquilo que se sente.

No trabalho do Poeta Visual, a linguagem também é construção coletiva. O filme nasce de muitas mãos -mãos pretas, mãos que carregam histórias e que, segundo ele, “diluem o peso da responsabilidade e transformam o processo em algo mais orgânico, mais vivo”. Há, nesse gesto, uma dimensão política, ainda que não declarada: ocupar, criar e permanecer juntos.

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Não há, segundo o diretor, uma intenção fechada sobre o que o público deve sentir. Há, sim, um compromisso: provocar. “Eu quero que as pessoas sintam alguma coisa, boa ou ruim, mas que tirem elas do lugar comum.” E talvez seja exatamente isso que acontece. A experiência não é linear: ela inquieta, desloca, tensiona. Em cena, múltiplas presenças coexistem – ao mesmo tempo em que há muitos corpos, há também uma solidão evidente. Um conflito silencioso. Uma dança entre excesso e vazio.

Essa dualidade não é acidental. Ela atravessa toda a construção do filme – assim como atravessa o próprio conceito de Castelos & Ruínas. Arthur entende isso porque também vive esse atravessamento. É a partir dessa trajetória que ele constrói uma poesia encenada, equilibrando sua visão autoral com as demandas e a relevância do projeto.

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Seu caminho até aqui também carrega essas camadas. Jovem, negro, vindo de uma trajetória em que o audiovisual não era herança, ele reconhece o peso – e a raridade – de ocupar esse espaço. “Estar aqui ainda é um milagre das artes”, afirma. Mas não romantiza. Sua fala também é sobre estrutura, acesso e permanência. Sobre transformar exceção em continuidade.

Talvez por isso, o termo “poeta visual” não seja apenas um nome artístico, mas um posicionamento. Em entrevista, ele relembra como tudo começou: “Um amigo viu uma foto minha e disse que era poesia. Aquilo ficou na minha cabeça. No começo, eu não aderi totalmente, mas depois entendi que o meu trabalho é uma poesia.” Há, nesse gesto, uma recusa em se limitar a funções técnicas. “Eu não sou um fotógrafo, eu não sou um diretor. Eu sou um poeta visual. Eu faço poesia, independente da forma.” A imagem, então, deixa de ser registro e passa a ser linguagem.

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Em um cenário atravessado por métricas, algoritmos e pela constante pressão por relevância, a arte contemporânea se vê diante de um impasse: como existir sem se diluir? Como circular sem se perder? Para PoetaVisual, essa não é uma questão de recusa, mas de consciência.

“O que eu acredito é que a gente precisa entender muito bem o caminho que quer trilhar”, explica. Para ele, ignorar completamente a lógica das plataformas não é uma opção real. “Em alguma camada, todos nós vamos ser reféns do algoritmo, porque é através dele que muitas vezes a nossa arte chega nas pessoas, que o dinheiro vem, que a gente consegue ter uma vida digna.”

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Ainda assim, há margem para escolha. Arthur não fala em resistência idealizada, mas em estratégia. “Existem formas de não se render totalmente. É sobre entender como usar isso ao nosso favor, sem cair na comparação e sem abrir mão daquilo que a gente acredita.”

No futuro, ele não projeta apenas reconhecimento, mas construção. Quer criar caminhos que não dependam do acaso. “Quero abrir portas não só para o trabalho, mas para o ensino, para o acesso, para a possibilidade de outros jovens enxergarem o audiovisual como uma possibilidade real.” E completa, olhando adiante: a ideia é que, daqui a dez anos, o Poeta Visual esteja maior – não sozinho, mas levando outros junto no percurso.


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