Escrito por Tamy Reis

Durante muito tempo, estilos ligados à cultura preta foram reduzidos a estereótipos. O que vinha da periferia era visto como exagero, desleixo ou até inadequado. Hoje, esses mesmos códigos aparecem nas passarelas, nas campanhas e nos editoriais. A pergunta não é nova, mas continua necessária: o que mudou?

DJ Tamy Foto: Maria Paula

Para a creator de fashion e beauty Kathlenn Caroline Silva, a resposta não está na estética em si, mas no olhar que passou a legitimar aquilo que sempre existiu. “Para mim, nada mudou de verdade. Esses estilos sempre foram fortes, sempre foram referência, só não eram reconhecidos como tal. E agora a indústria está querendo beber dessa fonte. O que mudou é quem está olhando, porque quando começa a interessar para a indústria vira tendência, mas antes disso já era cultura, já era identidade, já era uma construção estética real. Então não é sobre valorização, é sobre quem valida.”

Kathlenn Caroline Foto; Divulgação

Esse deslocamento de olhar escancara uma estrutura antiga, ainda presente no mercado. O que é considerado bom gosto continua, muitas vezes, associado a um padrão específico, mais próximo de referências europeias e distantes da potência criativa brasileira.

Anúncios

“Sim, a moda brasileira ainda carrega uma visão muito elitista, e o que é considerado bom gosto ainda vem de um lugar muito específico, mais limpo, mais contido, mais europeu, como se fosse o padrão. Mas não é que o Brasil agora virou uma potência criativa, ele sempre foi. Só que nas periferias, a gente sempre foi referência em mistura, em cor, em presença, em construção de estética viva. O que está acontecendo agora é que começou a ser reconhecido, e muitas vezes depois de passar por validações externas.”

Mais do que um “novo momento”, o que se vê é um ajuste tardio de perspectiva. E, nesse cenário, tensionar essas narrativas se torna urgente. “Para mim, não é um novo momento, é sempre sobre um olhar que finalmente começou a se ajustar. E eu acho que tensionar isso é quase uma responsabilidade hoje, porque tem muita estética potente sendo criada por aqui que por muito tempo foi subestimada e ignorada.”

Anúncios

Esse filtro também aparece na forma como determinados elementos são interpretados dependendo de quem usa e de onde aparecem. A leitura muda, o significado muda e, muitas vezes, a origem é apagada. “Isso fica muito claro quando a gente fala de exagero, porque no fim não é sobre a roupa, é sobre o contexto e leitura social. Um exemplo que eu gosto muito de usar é a camisa de time. Por muito tempo usar a camisa de time no dia a dia era visto como desleixo, algo pouco elaborado, porque veio da periferia. Mas quando essa peça entrou em outros espaços, em outros corpos, com outra validação, ela virou tendência, styling, referência de moda. Então não é sobre exagerar ou não, é sobre quem tem o direito de ser interpretado como criativo.”

Anúncios

No fundo, a discussão revela algo mais profundo do que tendência. Fala sobre pertencimento, narrativa e disputa de espaço. Existe hoje um movimento mais forte de afirmação, de ocupar lugares e de sustentar uma estética que sempre existiu, mesmo quando foi marginalizada. E isso muda o jogo.

Anúncios

Ainda assim, o caminho está longe de ser resolvido. A moda brasileira começa a olhar mais para si, ensaia uma valorização da própria identidade e vê movimentos que reforçam essa estética ganhar força. Mas a estrutura que define o que é ou não legítimo ainda carrega marcas de desigualdade.


Descubra mais sobre Cultura Preta

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Anúncios