Entrevistas

Cultura Preta conversa com criadores do podcast que abre a 1ª edição programa Sound Up no Brasil, do Spotify

Criado por Lucas Moura e Stela Nasrine, ‘Calunguinha - O Contador de Histórias’ apresenta 12 histórias cantadas para crianças inspiradas em importantes figuras negras do Brasil e do mundo. Os episódios contam com a narração de artistas da música e da dramaturgia brasileira como Lázaro Ramos, Zudizilla, Naruna Costa, Yuri Marçal, Aretha Sadick, Luedji Luna, Ícaro Silva, entre outros.

‘Calunguinha – O Cantador de Histórias’ foi o podcast escolhido para estrear a primeira edição do programa Sound Up no Brasil, do Spotify, uma iniciativa global que apoia jovens de comunidades sub-representadas no desenvolvimento e capacitação para criação de conteúdo em áudio. E o Cultura Preta conversou com Lucas Moura e Stela Nasrine, criadores do projeto. 

Capa do Podcast Calunguinha Foto: Reprodução/Spotify
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Cultura Preta (CP) – Obrigado por essa oportunidade e para começar, gostaria de como surgiu a ideia de conversar com crianças pretas e consequentemente com pais de crianças pretas?

Lucas Moura (LM) – Calunguinha é um projeto que nasceu em família e toda a nossa família está envolvida. A irmã da Stela faz o Calunguinha, o irmão faz a mixagem e a masterização, eu faço roteiro e direção, ela (Stela) o som e o Caetaninho (filho da Stela) faz as vozes de crianças. E a ideia surgiu na pandemia, quando tentávamos fazer o Caetaninho dormir e já tínhamos contado todas as histórias, feito todas as brincadeiras e depois que ele dormiu começamos a conversar sobre como seria interessante ter algo novo para as crianças ouvirem, que fosse divertido e diversificado, algo além das histórias saturada como Chapeuzinho Vermelho e outros contos infantis. Se para as crianças em geral tem pouca diversidade, imagina para as crianças pretas?

Eu já tinha esse personagem, o Calunguinha, para o teatro e Stela teve a ideia de fazer um podcast. Em seguida veio o edital do Sound up, fizemos a inscrição no último dia e deu tudo certo. Mas essa relação de trazer histórias do povo preto para crianças pretas tem muito a ver, também, com o nosso trabalho. Eu faço teatro, voltado totalmente para o teatro negro já há algum tempo. 

Stela Nasrine (SN) – Eu tenho uma banda de Afro Beat com mulheres negras. E nós (eu e Lucas) temos uma trajetória muito parecida, por termos pais brancos e negros, e vivemos uma adolescência punk, sem entender muita coisa. Até que chegou Racionais e nos explicou algumas coisas (risos). Mas foi um caminho trilhado muito solitário e as frestas para quem não nasce em uma família que tem essa consciência negra, sempre vem da arte. É como se fosse uma mão que te busca e resgata sua identidade. Que essa consciência então seja cada vez mais cedo, que as crianças não precisem esperar conhecer o rap, ou chegar em uma fase adulta. Que elas possam enxergar e se enxergar desde pequenas em histórias de beleza, de vitória e de conquista.

Em resumo, o Calunguinha vem de muitas camadas de famílias; dos nossos pais e avós. E buscamos retratar isso nas histórias e ilustrar as situações reais que o Calunguinha passa, com relatos vividos pelas personalidades. Calunguinha não é só para as crianças pretas, é também para crianças e pessoas brancas, que precisam reconhecer nossas belezas. É por conta do racismo que não foi inventado por nós, que precisamos lutar tanto para reconstruir uma auto estima, que nossas crianças precisam aprender a se defender. 

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CP – Como trazer um conteúdo com uma linguagem e entendimento para crianças e transformar em podcast?

LM – Fazer o Calunguinha representa lidar com as minhas memórias e com as memórias da minha mãe, dos meus ancestrais. O racismo para minha mãe significou o silêncio, mas para mim é voz. Esse diálogo entre os nossos é o que alimenta o Calunguinha, pois propõe, através das histórias, que outras histórias sejam contadas e promovam escutas abertas. 

SN – Queremos levar esse projeto para além dos podcast, com jogos nas escolas e rodas de conversa. Além disso, fizemos questão de produzir esse material com a nossa produtora, para que no futuro seja um canal também para fomentar outros projetos como esse. 

LM – Acredito que o Calunguinha é muito menos didático, com o objetivo de ensinar algo. Mas sim relatos de experiências com emoção, onde crianças pretas se identificam e entendem o que fazer nas situações. 

CP – Nomes relevantes participaram do projeto, como Lázaro Ramos, Yuri Marçal, Ícaro Silva e Margareth Menezes. Como foi pra vocês ter essas vozes contando essas histórias?

LM – Na verdade, nossa ficha ainda não caiu (risos). 

SN – O Lázaro Ramos participa do primeiro episódio e ele topou participar antes mesmo de termos ganhado o prêmio. Em uma das mentorias ele foi convidado e perguntaram pra ele o que ele faria se fosse fazer um podcast. Ele respondeu que faria um conteúdo para os filhos, voltado para crianças pretas. E na cara de pau o Lucas o convidou para participar, ele topou e gravou mesmo à distância. E depois disso, resolvemos sonhar grande e alcançar grandes nomes. 

LM – Muitos toparam participar pelo projeto em si, pela importância, pela paixão e vivência similar. Ainda estou em estado de encanto (risos). Foi um divisor de águas para nossas carreiras. São nossos ídolos, que impactaram nas nossas vidas. 

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O Cultura parabeniza Lucas e Stela, e deseja boa sorte nessa caminhada!

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