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Review RR Cypher #1

O rapper Vaine faz uma analise dos versos dos MC's participantes da primeira RR Cypher.

Escrito por Vinicius Guimarães

Salve! Vaine na casa. Aqui de um jeito diferente, tipo Caçulinha atrás dos teclados escrevendo no Cultura Preta sobre o primeiro episódio da série de 5 Cyphers do projeto “RR Cyphers”, assinado pelo coletivo Roça Records. O projeto que reúne 25 artistas uberlandenses, além dos beatmakers, TiagoBits e Xavbeats, já deixa claro em sua primeira aparição a pluralidade de discursos, corpos e histórias. Com boa circulação, nos surpreende com a entrega de 13.000 visualizações em pouco mais de duas semanas de lançamento (números muito bons para a realidade local). O objetivo aqui é analisar e destacar alguns pontos importantes na RR CYPHER#1 que reuniu os artistas Nec, Jolie, AKA Profeta, Aliara e TwoMax.

Jolie. AKA Profeta, Aliara, Nec e Two Max durante gravações da cypher Foto: Mairla Melo/Roça Records
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O vídeo assinado por Jozé Vitor Araújo é gravado no topo do edifício Chams e funciona bem ao mostrar que a roça na verdade nem é tão roça assim. É bem verdade que Uberlândia é uma cidade grande e seu vasto horizonte urbano sustenta simbolicamente a ideia de que somos uma forte cena emergente pedindo passagem.

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O primeiro beat produzido por XavBeats é tranquilo e mais introspectivo. Diria que providencial para um início tão aguardado. Essa calmaria contrasta com os primeiros versos firmes do Nec. Acostumamos com os versos desenfreados de um cachorro solto da coleira que Nec nos entrega, mas gostei de um tom diferente aqui. A ideia continua a mesma, mas parece que mudou um pouco o caminho. Adaptando-se ao beat o mc fala um pouco mais ao pé do ouvido, postando a voz de forma um pouco menos gritada e acelerada. “Pratique libras, não sinais de gangue” é uma mensagem importante e demonstra certa maturidade de quem reservou duas barras pra tratar de acessibilidade. Já a legenda em russo não é necessária para qualquer bom entendedor. Destaco a estrutura do seguinte verso, que o mc encaixou perfeitamente no andamento da batida:

Dublê de maloqueiro
Hoje é o que mais tem
Trap é o Rio de Janeiro
Mas mineiro que é o trem
Bala, bumbo, clap, encaixa
Os vinil que toca nas caixa
A faixa que coloca a agulha
É de boombap Wu-Tang.

As aliterações e ritmo empregados em “bala”, “bumbo”, “encaixa”, “caixa”, “faixa” agrada muito nosso ouvido porque transforma o flow do Nec quase que num instrumento de percussão que acompanha o beat. As ênfases em “trem” e “Wu-Tang” fecham essa passagem mostrando que o cachorro doido do mangue ainda tá ali.

A primeira agradável surpresa é o verso da Jolie que já chega imprimindo um verso mais acelerado no mesmo beat. A mc vem correndo por essas bandas tem algum tempo e foi muito interessante vê-la neste merecido momento de destaque. O verso inteiro é bem encaixado no andamento da batida e tem uma melodia mais cantada que marca suas linhas desde sempre. As linhas são metalinguísticas, ou seja, tratam do próprio processo de construção, não só das linhas da cypher, mas de todo o seu corre no rap. Jolie traz uma voz feminina em busca de maiores espaços, tratando das dificuldades e também dos prazeres de fazer o que faz.

Cês não respeitaram minha voz
A vida inteira
Se eu tentei falar mais alto
Cês levou na brincadeira
Agora eu to correndo
Cês quer pegar um beira
Não é assim que funciona
Cês tá louco, cachorrera!

Pra mim esse é o verso destaque da participação da Jolie. A ideia é reta e fundamental. Apesar de explicitamente feliz pela realização, a artista se vê obrigada a ressaltar o quanto é (mais) difícil se fazer ouvir num cenário musical predominantemente masculino.

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Aqui é o ponto da virada do segundo beat, um boombap swingado e classudão do TiagoBits sampleando George Benson. Essa virada, além de trazer novos ares a faixa, casa perfeitamente com os três artistas pretos que vem a seguir. O primeiro, AKAprofeta, é uma outra agradável surpresa da cypher. Diferente do estilo de outros trabalhos o mc mostra excelente afinação, flow e uma caneta que soube abordar questões sociais problemáticas sem abandonar a sua intenção de seguir a atmosfera contagiante do instrumental. Na verdade quem tá ligado no trampo da Família Gato Preto já sabe que o Profeta desembola cantando, mas isso ainda não tinha sido explorado da mesma forma em outros trabalhos solo recentes.

Na mão só o celular, na outra o guarda chuva
Não é glock nem AK. mas é pra viatura
O que não mata é essa vontade de sonhar
Também pudera não matar, pra essa vontade não morrer

AKA Profeta se destacou com versatilidade e maturidade vocal, se colocando definitivamente como um dos nomes mais promissores da nossa cena local. Em seguida temos Aliara que como sempre entregou um dos melhores versos da cypher. A primeira coisa que me chama atenção é sua performance ímpar. Aliara sabe muito bem como cantar pra câmera e tomar conta da situação. Sorte nossa que ela tá voltando a dar as caras nas produções do Udão. Desde a época do DMG se destacava em questão de flow e canetada. Ouve lá a parte dela em “Máfia feminina” e diz pra mim se to falando besteira. Sua participação é completa, pois além de mc é dançarina e sabe utilizar a maturidade de sua expressão corporal a seu favor. Sua relação íntima com a dança fica evidente em diversos momentos de suas linhas, como no verso em que ela cita “six-step” e “footwork” ou até mesmo em outros muitos momentos em que exalta algo natural que extrapola qualquer nicho musical e vou chamar aqui de black culture: celebrar dançando.

Na sua família todos batem o pézão,
Rock, Blues e Baile Charme
Irmão, cês não tão pronto não.

Mostrando que o bagulho também não é bagunça deixa claro que essa cultura é pra quem vem da rua e só não abraça as viaturas. Em tempos em que nosso rolê virou produto é importante se lembrar de por alguns pingos nos “is”.

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Acho bem difícil dizer qual meu verso preferido nessa cypher, acho que todos entraram muito bem, mas particularmente gostei muito da participação do TwoMax que fechou com chave de ouro. É definitivamente a maior “oreiada” da track e ficou bem colocada no final. Rimou muito e achei bastante imprevisível o rumo do seu flow. Me lembrou pra ser sincero até o jeito do Brown entrar em algumas faixas. O TwoMax se manteve fiel ao seu proceder como mc do A Lasca Filosofal, como fica claro esse verso:

Nesse fim de semana, três jovens negros assasinados
A desculpa das manchetes é que os tiros foram enganados
Policiais safados que sempre ressalto em minhas letras
A desculpa da manchete é que os tiro foram enganados

O coletivo e o São Jorge foram muito bem representados nas suas linhas, que não pedem licença e vem te dar a boa ideia. O verso mais forte da cypher pra mim é o seguinte:

Aonde eu moro é difícil ver um preto de 20
Que na minha idade nunca foi para a 16ª

A estrutura do jogo de palavras que se baseia na sequência de numerais traz força pra ideia a ser passada. Mostra a realidade difícil do povo preto nas periferias que Uberlândia tenta esconder a que vem de fora. A ideia é reta e ao mesmo tempo sútil, de modo que talvez alguém do alto de seu privilégio pensei “décima sexta o que?”.

A realização em si do projeto “RR Cypher”, apoiado pela Secretaria Municipal de Cultura através do PMIC, tem sido muito benéfica para todos que diretamente ou indiretamente contribuem com a cena de rap local. Diversidade, respeito e competência têm sido os pilares que sustentam O recado que o primeiro episódio nos deixa é: podemos esperar muito dessa movimentação.

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