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Dançarina imperfeita e o (não) destaque negro nos filmes de dança

No dia 7 de agosto estreou na Netflix o filme Dançarina Imperfeita, estrelado por Sabrina Carpenter e dirigido por Laura Terruso. Desde quando foi divulgado seu primeiro trailer o filme já gerou polêmicas, por ele começa com a personagem interpretada por Sabrina, Quinn Ackerman, rezando para Beyocé abençoá-la no concurso de dança.

NOTA: Esse texto contém spoilers do filme Dançarina Imperfeita

No dia 7 de agosto estreou na Netflix o filme Dançarina Imperfeita, estrelado por Sabrina Carpenter e dirigido por Laura Terruso. Desde quando foi divulgado seu primeiro trailer o filme já gerou polêmicas, por ele começa com a personagem interpretada por Sabrina, Quinn Ackerman, rezando para Beyoncé abençoá-la no concurso de dança. E estaria tudo bem, se Quinn não fosse uma protagonista branca em meio um universo de personagens negros e de vivências negras.

Não é de hoje que filmes de dança fazem sucesso, principalmente os de dança contemporânea trazendo muito do hip-hop, você deve logo se lembrar dos filmes da franquia “Se ela dança, eu danço”. Também é bastante comum vermos esses filmes com protagonismo branco. Então porque o novo filme adolescente da Netflix é problemático?

A sinopse do filme na plataforma é: “Uma aluna brilhante e estabanada topa tudo para entrar na faculdade que o pai frequentou, incluindo se transformar em campeã de dança junto com os amigos desajustados”. Ao lado da sinopse vemos a foto de divulgação que tem 9 personagens, dos 9, apenas 3 são brancos, uma delas a protagonista. Quinn nunca tinha dançado na vida, a única e exclusiva motivação da personagem é entrar na faculdade de Duke, após mentir na sua entrevista dizendo que fazia parte do grupo de dança famoso do colégio onde ela estudava, Quinn tenta entrar na equipe liderada por Isaiah, personagem considerado vilão do filme e interpretado por Keiynan Lonsdale. Após não conseguir a única vaga para entrar no grupo, ela resolve criar seu próprio grupo, para assim se provar dançarina e entrar em Duke. Sua melhor amiga Jass, interpretada por Liza Koshy, é uma das dançarinas mais talentosas do grupo e pretende se provar na competição de dança para entrar na Academia Nacional de Dança. As chances de Jass eram altas estando no grupo de Isaiah, mas Quinn a faz desistir do grupo e se juntar na sua missão de formar um novo grupo de dança no colégio.

Só nesse primeiro arco do longa, os dois personagens negros de mais destaque precisam submeter suas vontades para agradar a protagonista branca. Como Isaiah não faz isso, ele é dado como vilão. Os demais personagens aparecem a partir daí, formando o grupo inexperiente e sem talento de Quinn. Esses novos personagens, que não lembro o nome porque o filme não faz questão que eu lembre, são puros esteriótipo: o jogador de futebol, a emo, a indiana (que a marca dela é apenas ser indiana), o negro que toca hip-hop, e o branco nerd. Para completar o núcleo principal, entra em cena o interesse romântico da personagem, Jake Taylor, interpretado por Jordan Fisher, um jovem dançarino super talentoso que é obrigado a desistir da sua carreira por conta de uma fratura no joelho. Jake, que estava há anos sem dar notícias ao mundo, é encontrado por Quinn e ela o convence de ser coreógrafo do grupo. Todo o universo de personagens exite para agradar e satisfazer a protagonista, menos o vilão, é claro, que é construído em um esteriótipo da poc má que é cruel com os outros apenas por diversão.

Surpreendentemente o grupo de Quinn se classifica para competição, após um grupo de dança mais habilidoso que eles serem eliminados por uma infração tosca. Durante os tempos de ensaios, Quinn descobre que a avaliadora de Duke que iria assistir a competição de dança não trabalha mais na universidade. Assim, a única saída para Quinn entrar na tão estimada universidade é recuperando suas notas que haviam caído durante esse período, então ela larga todo o grupo, abandonando a amiga, que abriu mão do seu sonho por ela, e Jake, que perdeu seu emprego (e nunca mais foi tocado no assunto) por conta do grupo estar treinando na academia em que ele trabalhava sem pagar. Mas, pasmem, Quinn não consegue mais viver sem a dança e decide voltar ao grupo, que a recebe de braços abertos mesmo depois dela abandoná-los inesperadamente. O grupo treina, em tempo de meses ou semanas, o grupo inexperiente fica com uma qualidade superior a de grupos profissionais e vai para a competição. Jass, por ser a única dançarina com currículo no grupo, é escolhida como a capitã, logo tendo mais destaque e solo na dança. Mas não é isso que acontece, Quinn se atrasa para a competição, chega no meio da dança e vira o destaque do grupo, deixando a personagem negra e dançarina, literalmente, no fundo do palco. No fim, o grupo de Quinn vence a competição irregularmente (já que só poderiam participar alunos dos colégios, e o Jake, já formado, participou da dança) e com uma dança equivalente a dança de gincana de jogos internos, muito inferior ao do grupo do Isaiah, que muda inexplicavelmente sua personalidade e vira uma boa pessoa.

Dançarina Imperfeita alcançou o top 10 na Netflix na semana em que foi lançado, mesmo sendo uma obra insignificante. A protagonista branca destrói o mundo de todos ao seu redor para se adaptar aos seus desejos e falhas, os personagens não têm profundidade nenhuma e a única motivação deles, os que tem motivação, é entrar na universidade. Dos personagens negros, o único que tem sobrenome é o Jake, mesmo assim nada sabemos sobre ele, além de ser um ex-dançarino frustrado. A personagem vive um romance problemático, já que ela é uma adolescente com mais ou menos 16 anos, e o Jake é um adulto na casa dos 20 e tantos anos de idade. O roteiro é raso, corrido, cheio de furos e utiliza de TODOS os clichês possíveis de filmes de dança. As atuações dos personagens secundários são melhores que a da própria protagonista. O longa ainda quebra com a sequência de produções com protagonismo negro que a Netflix vinha trazendo, mostrando que eles não estão ligando muito para esse protagonismo, mas sim para o que vai trazer lucro (mas nenhuma novidade por aqui né?).

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