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Revisitando: Um Príncipe em Nova York

Um Príncipe em Nova York, de 1988, inicia a série 'Revisitando'. Textos que trarão reviews e críticas de filmes no século passado com protagonismo negro.

Nessa quarentena resolvi reassistir filmes do século passado com protagonismo negro, então escreverei aqui no Cultura Preta reviews/críticas desses filmes. Nenhum outro seria melhor para começar essa série ‘Revisitando’ que Um Príncipe em Nova York, de 1988 que teve uma continuação confirmada mais de 30 após o ano do lançamento do primeiro filme. A sequência do longa vai (ou iria) estrear neste ano de 2020.

Um Príncipe em Nova York (originalmente chamado de Coming to America) foi dirigido por John Landis, que teve muitas produções consagradas da década de 1980, como os filmes “Os Irmãos Cara-de-Pau”, “Um Lobisomem Americano em Londres“, “Trocando as Bolas”, e alguns videoclipes, como o icônico “Thriller“, de Michael Jackson. O filme é baseado em uma história criada originalmente por Eddie Murphy, mas o roteiro do longa ficou por conta de David Sheffield e Barry W. Blaustein. Além do próprio Eddie Murphy, a comédia romântica é estrelada por Arsenio Hall, James Earl Jones, Shari Headley, John Amos e Madge Sinclair.

No filme conhecemos Akeem (Eddie Murphy), o príncipe de Zamunda, um rico país africano. Akeem não deseja nada além de uma mulher que o amará apesar de seu título nobre. Para escapar de um casamento arranjado, Akeem foge para os Estados Unidos acompanhado de seu exigente companheiro, Semmi (Arsenio Hall), para encontrar a sua rainha. Disfarçado como um estudante estrangeiro e trabalhando em um restaurante de fast food, ele namora Lisa (Shari Headley) e luta contra a revelação de sua verdadeira identidade.

Um Príncipe em Nova York trata de diferenciar muito bem os universos de Zamunda e da América (que é como eles chamam os Estados Unidos). Logo na sequência inicial a câmera sobrevoa uma grande área verde, já mostrando para nós que a população africana têm uma relação amistosa com a natureza, mais para frente em uma sequência confirmamos isso quando vem durante uma conversa do Rei com Akeem animais passando entre os dois e Akeem comprimentando os animais. Os primeiros trinta minutos das quase duas horas de filme servem para nos apresentar ao universo africano, que não é feito de forma estereotipada com povos animalizados e exotizados, muito pelo contrário, mais para frente descobriremos como Akeem é um ser bastante instruído comparado aos homens americanos, apesar do personagem se apresentar de uma forma ingênua e “bobificada” em alguns momentos, acentuando o teor cômico da obra. No primeiro momento do longa o que deixa um ar de incômodo é a sexualização do corpo feminino em algumas cenas e falas, mas exceto isso, que comparado à outros filmes da época é bem menos problemático, o universo de Zamunda é bastante atrativo. Além da ligação com a natureza, a direção de arte capricha nos figurinos trazendo roupas coloridas e criativas, deixando o país ainda mais charmoso.

Quando Akeem chega à Nova York escolhe ir para o Queens (trocadilho em inglês, já que Queen significa Rainha). Lá é nos apresentado o universo americano, cheio de problemas sociais, pessoas nas ruas e ‘pretos malandros’, apesar de já inicialmente também mostrar uma comunidade unida entre si, como já vimos em outros filmes com protagonismo negro nessas áreas. Akeen, então, sai à procura da sua noiva. Após alguns momentos cômico mostrando a ingenuidade do príncipe, ele e seu companheiro de viagem, Semmi, vão à uma igreja, onde conhecem Lisa, a mulher independente e de opinião própria que Akeem sempre buscou. Logo descobrimos que Lisa tem um relacionamento com um jovem bastante rico, relacionamento esse que satisfaz mais o seu pai (dono do fast food que Akeem e Semmi conseguiram um emprego) que a própria Lisa. Akeem e Lisa começam a interagir e após um anúncio de casamento inesperado Lisa rompe com Darryl Jenks (Eriq La Salle) e fica com Akeem, acreditando que ele é um faxineiro e estudante africano pobre.

O filme é bastante afrocentrado, podendo contar nas mãos os personagens brancos do longa e nenhum sendo diretamente influenciável na narrativa. A única problemática disso é que dentre tantas mulheres negras retintas apresentadas como possíveis esposas para Akeem (inclusive a sua noiva arranjada em Zamunda), a escolhida, Lisa, é lightskin. Não entrando no debate de colorismo (talvez em outro texto), mas em meio de tantas mulheres retintas você destacar a de pele mais clara como a mais inteligente, como “a escolhida” é um incentivo ao estereótipo de que mulheres negras retintas são “gostosas, mas não tão inteligentes”, claro que isso se dá, também, por o filme ter uma direção e produção branca. Em relação ao romance, nos é entregue até uma estrutura clichê, porém não feita de forma chata. O mocinho que procura um amor que quer que valorize ele além da sua fortuna e títulos, então se passa por uma pessoa pobre para saber se ela se interessa por ele por sua essência, e não por seu dinheiro.

Um Príncipe em Nova York é um filme que merece ser reassistido, traz um movimento interessante em hollywood na década de 80, sendo um filme quase 100% negro (apesar da direção e produção branca). Hoje o filme é considerado um clássico, mas as reações foram negativas nas suas primeiras exibições, reações bastante injustas. As atuações são magníficas, Eddie Murphy mostrando todo o seu potencial aos 20 e poucos ano, inclusive ele e Arsenio Hall interpretam outros três personagens além dos personagens principais. A trilha sonora de Nile Rodgers nos envolve ainda mais no filme, trazendo uma sonoridade marcante da época.

Um Príncipe em Nova York está disponível na Netflix e para alugar no Youtube filmes e é uma boa pedida para um momento que queira descontração com um filme de comédia romântica. E quando a sua sequência for lançada, com certeza escreveremos sobre ela aqui no Cultura Preta.

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