Sem categoria

Mulherisma Africana por Nah Dove: Parte 1

Em escritos que datam de 1998, Nah Dove debate a população Preta em meio ao contexto e a ideologias do Ocidente. Nesta primeira parte de seu trabalho intelectual, Nah Dove debate o mundo racializado, a positividade existente na unidade cultural e a xenofobia.

Quais as respostas criadas por um povo diante de uma opressão sistêmica? Nas terras ocidentais, os processos de imperialismo e de colonização subjugaram as culturas africanas. Em resposta, surge o esforço intelectual de recupera-las e exalta-las – um destes movimentos, realizado por Nah Dove e outras de suas pares, pauta o Mulherisma Africana. Mãe aos 20 anos de idade, Dove traça, em “Mulherisma Africana: Uma Teoria Afrocêntrica”, reflexões sobre a população Preta. Nesta primeira parte de sua obra, a racialização e feminização do mundo, o conceito de unidade cultural e a xenofobia são discutidos pela autora, em diálogo com várias outras e outros.

Senhora negra idosa sentada
Nah Dove é uma das principais vozes do Mulherisma Africana. O conceito, cunhado por Clenora Hudson-Weems, ganha ainda mais corpo com a teoria de Nah Dove. Filha de uma mulher inglesa e de um pai ganês, Nah Dove foi mãe aos 20 anos de idade. Recuperou os seus estudos aos 40, agora vivendo no Reino Unido, para onde havia se mudado quando mais nova junto aos pais. Importante referência no movimento de Estudos Africanos, Dove contribuiu para a publicação da primeira enciclopédia de heranças africanas em território britânico. Imagem: Rep/ Angela Cobbinah Blog.

Emerson Soares

Os desenhos utilizados para a arte de destaque foram produzidos pela artista Sarah Golish e podem ser encontrados aqui.

Herstória e a Racialização do Mundo

Qual o impacto do processo de dominação europeia sobre África e sobre o mundo? Em que consequências este processo implica?

O mundo foi lapidado, historicamente, por uma orientação cultural específica – uma orientação ariana, que subjugou de forma sistêmica a realidade dos países e dos povos do Sul. Esta é a racialização do mundo com que Nah Dove inicia o seu artigo.

A racialização consiste justamente na criação de uma dinâmica global em que a raça se torna um componente ideológico primordial para a consolidação de processos de exploração, cárcere e sequestro que observamos na trajetória dos povos Africanos.

Nascida no Reino Unido, Hazel Carby é professora de estudos afro-americanos e estudos americanos. Imagem: Rep/Bristol Festival of Ideas

As consequências deste processo são muitas. As vidas Pretas no Ocidente são abaladas e perseguidas por este grande trauma. O resgate cultural e a plantação da semente Africana nas terras coloniais se apresentam como a solução.

E para iniciar a rememoração de seu ponto mais profundo – a valorização do feminino e do matriarcado – surgem a herstória e o Mulherisma Africana como possíveis respostas. Os dois conceitos, que incidem um olhar cirúrgico e específico sobre a realidade mulheres e homens Pretos Africanos e Afrodescendentes no lado das Américas, criam, além de um reajuste histórico, uma atmosfera de resgate coletivo.

Primeiro, exaltar a figura da mulher e do feminino Africano. Segundo, direcionar os homens Pretos ocidentais para este mesmo olhar, fazendo com que se abdiquem de suas construções neste lado do oceano. Todo este movimento é um grande esforço cultural que Nah Dove aponta ter sido a fonte de sobrevivência desta população por todos estes séculos de extermínio. Ainda hoje, se encarrega da mesma relevância.

Unidade Cultural, Nosso Avanço Civilizacional

Não é de hoje que a ideia de simplificar e resumir a África a ‘uma coisa só’ assume um tom pejorativo no debate social. O que várias vezes significou descaso e desinteresse com nossas raízes históricas, bem como uma anulação desumana de nossas individualidades, hoje pode assumir outros tons.

Foi Cheik Anta Diop quem consolidou, com maestria, a ideia de unidade cultural como um importante fator a ser relevado dos povos Africanos. Na sua concepção, unidade não significaria uma repetição incoerente de um sistema de valores, mas uma forte conexão entre os povos e etnias que ultrapassa limitações geográficas. Um continente do tamanho da África com um traço organizacional espalhado por todos os seus cantos exacerbava o nosso senso de Povo.


Nascido na cidade de Thieytou, no centro-oeste de Senegal, Cheikh Anta Diop foi, em vida, historiador, antropólogo, acadêmico das Letras e figura política. Realizou estudos em Paris, onde cursou Matemática e Letras simultaneamente. As teorias de Diop são carros-chefe para o desenvolvimento do pensamento afrocêntrico. Entre as intelectualidades negras, o senegalês é reconhecido pelo desenvolvimento do conceito de unidade cultural no continente africano. Imagem: Rep/Site Coração Africano.

O conceito, operado pelos europeus, sofreu uma distorção e – por que não? –hoje revela os estragos que causa nos amplos debates. A unidade cultural foi um conceito essencial para a ataque sistêmico e para o registro documental da inferioridade dos povos Africanos. Uma repetição, em sua concepção, significava um atraso das mais diversas áreas de conhecimento destas nações.

Sigamos com a escolha sábia de Cheik Diop. Até porque é este mesmo conceito que gera frutos nos movimentos acadêmicos e epistemológicos contemporâneos. A Afrocentricidade e o Pan-Africanismo pressupõem esta escolha, a escolha de nos enxergarmos enquanto um coletivo, promovendo um intercâmbio fortalecido de conhecimentos e uma construção de nossa história Africana em Ocidente. Certamente, o que antes foi um elemento de conquista importante para nações europeias, hoje significa ameaça.

Xenofobia e a Ausência de Responsabilidade Como Estratégia Geopolítica

Toda a teoria de Nah Dove começa partindo de uma ideia principal: existia um berço cultural ao Norte, existia um ao Sul. Em um determinado momento da história, estes berços se encontram. E o resultado do encontro foram as mais diversas violências.

A escravização, e a criação do racismo científico e das ideias de supremacia branca ilustram suficientemente as impressões que saíram destes encontros. Evidentemente, um berço se sentiu superior ao outro. E o Norte, outrora, já havia repetido seu temor do estrangeiro. Nah Dove relembra a Grécia antiga, lugar no qual o assassinato de um estrangeiro era permitido.

A crença na superioridade branca […] é um componente cultural da lógica europeia. Como Hilliard (1987) afirma, a determinação eurocêntrica da humanidade Africana (que é rebaixada) permite que os europeus neguem a realidade do seu papel histórico na destruição e degradação da África e de seus povos.

– DOVE, 1998, p.11

A autora atribui o impulso de xenofobia dos povos europeus à uma realidade de escassez de recursos mais ao Norte – um motivo que impulsionaria a agressividade. Uma vez acionada, as campanhas de ódio lideradas por sujeitos arianos que resultaram nos três processos acima mencionados tiveram o mais pleno sucesso. Com a humanidade negada aos povos Africanos, o berço do Norte consegue amenizar e até neutralizar o seu papel histórico na destruição da vida destas pessoas.

Um dos elementos essenciais na política de conquista é conseguir fazer com que seus valores permaneçam mesmo após sua partida física. A superioridade equivocada dos europeus arianos permanece naquilo que Nah Dove chama de aculturação. A perda dos sujeitos Africanos, em Ocidente, de sua relação com as raízes culturais de África, facilita em larga escala a assimilação de valores e preceitos culturais atrelados a Europa.

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: