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Rap: Identidade, Acesso, Sobrevivência

O segundo dia da Mostra Cultural de Cinema, Literatura e Identidade Negra, que contou com duas intervenções culturais e com uma Mesa de Debate com o tema 'Rap e Formação Identitária' suscita a mensagem do Rap enquanto lugar de acolhimento da humanidade do outro e de criação de acessos.

O segundo dia da Mostra Cultural de Cinema, Literatura e Identidade Negra, que contou com uma mesa de debate com o tema ‘Rap e Formação Identitária’, suscita a mensagem do Rap enquanto lugar de acolhimento da humanidade e de criação de acessos.

Emerson Soares

Estar em meio de pessoas brancas despertou aquilo que existia de não-branco em um corpo dentro de um espaço elitizado. Escutar rap foi o complemento final para aflorar, então, sua Negritude. Primordialmente rapper, mas também graduando de Artes Visuais na Universidade Federal de Uberlândia, Vaine inicia a segunda Mesa de Debate da Mostra de Cinema, Literatura e Identidade Negra, do dia 05/09 e que introduz a temática ‘Rap e Formação Identitária’.

O artista dividiu a mesa com a consagrada artista na cena do rap uberlandense Andrea Felix e com a discente e doutora da Universidade Federal de Uberlândia Cintia Camargo Vianna.  

O desconforto, de acordo com ele, está relacionado a dificuldade de presença Preta na Galeria do Museu, onde estudantes desta graduação expõem trabalhos. No pequeno auditório com umas poucas fileiras, o rapper parece empolgado diante da outra realidade que – literalmente – enxerga a sua frente.

Olho no olho, o artista reverencia o grupo A Lasca Filosofal, que também abrem a Mostra com uma intervenção. Emergentes no bairro São Jorge da cidade, Mexicano Marginal, Two Max, Weltoxico e Luanzera fazem rima pela autoafirmação, mas buscando solidariedade. É pelas rimas que o quarteto também incentiva e pede por doações de brinquedos para crianças de sua comunidade.

#DaSulProMundo, o quarteto A Lasca Filosofal, vindo direto do bairro São Jorge da cidade de Uberlândia, entoa sua autoafirmação: ‘Se depender de nóis, a favela existe’. Vídeo: Rep/ Canal A Lasca Filosofal

Rap: o Problema Como Humanidade

Para Vaine, o rap foi instrumento essencial para felicitar-se estando no próprio corpo. Para Andrea, apesar de o encontrar por acaso, logo o rap começa a tangir os problemas sociais. Descobrindo o seu poder de canto, Andrea Felix transborda sua voz para outras meninas ao iniciar um projeto de mulheres no rap.

A intitulada ‘Primeira-dama da Quebrada’ por um DJ que conhecera sabia quem precisava estar nesse projeto. Falando sobre o início dessa trajetória, ela fala: ‘Fui atrás de um monte de meninas, mas os parâmetros que eu procurava eram os seguintes: tinham que ser problemáticas’. As rimas foram de encontro à vários perfis – todos demarcando alguma mazela. Passaram pelo seu projeto meninas confrontando seu próprio gênero. Outras que já haviam sido estupradas. Passaram, também, as que estavam grávidas, outras que já haviam cometido crimes – dentre eles, o de assassinato – e mais outras que já foram presas. 

De voz terna e calma, a Primeira-dama relembra os momentos antes de embarcar no projeto independente. Aliada a outros homens, por eles era notificada de que ‘no rap não tem ninguém sorrindo’.

Cara fechada e marrenta, nos eventos de rimas Andrea não era só Andrea – era uma embaixadora do rap, e deveria honrar este compromisso.  Mesmo que tenha desenvolvido sua identidade enquanto mulher Preta dentro do rap ao longo do tempo, definitivamente há um lugar específico para a raiva e para o problema nestas rimas.

Raiva, desigualdade e os problemas também fazem parte do que somos, e é o rap o lugar em que todos eles são verbalizados e potencializados. A conexão de Cintia com as rimas, que vem dos seus 14 anos e se estende a suas pesquisas, nos diz muito sobre elas. Cintia coloca: ‘o rap vai falar da sua humanidade’.

A Caneta na Escola, a Caneta na Rua: Escola e Espaço Público Como Contrapontos e Aliados

‘Era estudar ou era Jardim Manacá para sempre’ – era este o pensamento que Cintia tinha quando na sua cidade, e que menciona em sua fala. Território na Zona Oeste da grande São Paulo no qual a discente nasce, cresce, cria laços de afeto e se entende Preta, o Jardim Manacá abriga suas raízes. Como Cintia, tanto Vaine quanto Andrea tiveram acesso a Universidade Federal, possibilidade que somente impulsionou a arte que criam. Um impulso que foi instaurado porque o espaço da educação superior simbolizou um espaço de acesso a possibilidades e informação.

*ATENÇÃO: Os Editais relacionados e Extensão e Cultura abertos pela Universidade Federal de Uberlândia estão concentrados no link abaixo. É importante sempre ficar de olho!

http://www.editais.ufu.br/extensao-cultura

Ainda um espaço elitizado e problemático – onde uma denúncia anônima e racista de graduandos existe, como relembra Vaine, e onde um manifesto racista é escrito na porta de um banheiro durante um Congresso de Pesquisadores Negros em pleno andamento – a universidade não anulou as ruas, onde as rimas destes artistas ganham corpo. O projeto de Andrea se autodenomina, e hoje a cidade de Uberlândia é palco da Batalha do Coreto, que cresce em meio ao terreno público da Praça Clarimundo Carneiro.

Ainda assim, ao mesmo tempo em que se reconhece a possível coexistência e cooperação destes dois lugares, reconhece-se na mesma medida a autonomia de ambos. Cintia, por exemplo, ressalta a importância da formação e da educação fora dos espaços de educação formal, nos quais vemos, nu e cru, o grito de quem compõe.

Identificação Como Semente, Rap Como Acesso

Quando criança, ouvia a rádio 105.FM, uma frequência da capital paulista. Cercada por hip hop, rap e soul, pela rádio Cintia descobre os Racionais MC’s. Filha de mulher Preta e homem branco, Cintia teria sua interracialidade abalada por uma entrevista de Mano Brown naquela mesma rádio onde o descobriu.  

Entre o mundo do Preto e o mundo do branco, Cintia cultuava dificuldades, principalmente com seu pai. Ela lembra até hoje, e relembra na Mostra, o momento de satisfação da figura paterna quando alisara, mais jovem, o cabelo. Aquele momento era, em suas palavras, a felicidade do pai em ver ‘o seu último traço de Negritude apagado’. Hoje, ele foi recuperado – a professora tem um cabelo crespo. O elo estabelecido com o rap foi crucial para enxergar sua Negritude.

‘Pra Quem Já Mordeu Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe’ dá a sentença de Vaine e o direciona para sua caminhada artística. A identificação é com o embalo, lançado em maio de 2009 pela produtora Laboratório Fantasma, e o seu autor. ‘Pra Quem Já Mordeu..’ é a referência, Emicida é a semelhança. O processo de identificação com o renomado rapper, que também perdeu a figura paterna aos 3 anos, foi importante para que Vaine aflorasse dentro de Vinícius.

‘Ser um preto tipo A custa caro/ É foda, foda é assistir a propaganda e ver/ Não dá pra ter aquilo pra você’. Os versos de Capítulo 04, Versículo 03 são explorados por Vine em um trabalho para a graduação, numa tentativa de achar identidade em um espaço embranquecido. Vídeo: Rep/ Canal Andre Coutinho

‘Capítulo 4, Versículo 03’ se apresenta em um trabalho feito na Universidade por Vaine. A composição dos Racionais MC’s escancara percepções que o Preto favelado encara, dentre elas a violência, o cárcere e a falta de acesso. Tema difícil na vida de pessoas Pretas, o consumo e o patrimônio são muito bem colocados pela mesa.

Questionado sobre um rap ostentação criado por brancos, Vaine esmiúça a questão do consumo e do dinheiro em uma sentença simples e curta. ‘Quando o playboy fala (sobre os seus bens materiais), ele fala de outro lugar’.

A mesa caminha para o fim com este debate. Definitivamente, o bem e os lugares públicos são uma importante veia da continuidade da cena do hip-hop e do rap. Mas pelas rimas, como mostram os meninos do A Lasca, homens e mulheres Pretas, dos bairros mais longínquos e das realidades mais duras, criam caminhos de acesso. Para si mesmos e para os seus.

Hoje se encerra a Mostra de Cinema, Literatura e Identidade Negra, com o Baile Black, às 16h, na Vertical Escalada, Rua Rafael Lourenço, 45

‘Engenho de Dentro’, com Natania Borges, é a mais recente produção do rapper Vaine. Vídeo: Rep/ Canal Vaine Rap

LEIA O TEXTO DO PRIMEIRO DIA DA MOSTRA AQUI.

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