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Ser Preto Faz Sentido em Conjunto

O primeiro dia da Mostra Cultural de Cinema, Literatura e Identidade Negra, que contou com uma Mesa de Debate com o tema ‘(R)existindo: Fotografia e Cinema Negro’, pensa o Audiovisual como um lugar comum e possível para sujeitos Pretos e evidencia que a construção das nossas Identidades ganha mais sentido quando feita em conjunto.

O primeiro dia da Mostra Cultural de Cinema, Literatura e Identidade Negra, que contou com uma Mesa de Debate com o tema ‘(R)existindo: Fotografia e Cinema Negro’, pensa o Audiovisual como um lugar comum e possível para sujeitos Pretos e evidencia que a construção das nossas Identidades ganha mais sentido quando feita em conjunto.

Emerson Soares

Há tempos escreveu-se uma lenda sobre um suposto Rei Negro dentro das fronteiras de Minas Gerais. Seu canto, entrepondo os picos mais altos do bioma aqui presente, entoava emancipação.

Sentem mais perto. Se aproximem de mim. Ressuscitem comigo os cantos deste Rei destituído da história, escrita por mãos que não as nossas e cujo o registro do título deste homem desconhecido – Rei Negro – foi o seu empenho máximo. É o que propõe a fala e a intervenção artística de Alessandro Cardoso em um dos momentos do dia de abertura da Mostra Cultural de Cinema, Literatura e Identidade Negra, que se estende até o dia 06 de setembro.

Preto e graduando de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alessandro abre a noite de debate sobre Fotografia e Cinema produzidos e voltados para a população Preta com uma intervenção. A aproximação física é o primeiro requisito para o início do processo de aproximação – simbólica – pela fruição.

Uma visita ao quilombo Quingoma em Salvador estimula a Negritude de Alessandro. Apesar de não ser um descendente direto do povoado – dizimado historicamente, como coloca -, estar com irmãos quilombolas floresceu sua identidade. Estar junto a este povo, em seu crescimento pessoal e em sua vinda para Uberlândia demarcou sua arte, bem como os significados dela, como grandes legados. ‘Eu carrego hoje o legado de uma luta, de um povo dizimado, que eu quero recobrar, mais suas riquezas, sua beleza, e a importância da sua instalação no interior de Minas Gerais, do que sua morte’.

Fazer com o coletivo Preto é o que dá sentido a e transforma a realidade social. Este é um fio condutor que tece toda a noite. Seguimos com a exibição do documentário ‘Kbela’, produzido por Yasmin Thayná, fundadora do portal de disseminação de conteúdos audiovisuais Pretos Afroflix.

Em uma metáfora visual, mulheres Pretas tentam se desvencilhar das pragas do racismo enquanto pensam, cortam e enfeitam suas cabeças e cabelos. Com um enredo simples, o documentário suscita uma dor histórica e profunda dos fios. O processo de reflexão sobre eles é profundo e imbricado, mas em Kbela ele não é feito sozinho e nem precisa ser.

Documentário realizado pela idealizadora do Afroflix, KBELA, de Yasmin Thayná, se propõe a um olhar sensível sobre a experiência do racismo vivido cotidianamente por mulheres negras. Vídeo: Rep/ Canal do YouTube KBELA filme

O debate principal da noite envolvendo Larissa Dardani (cineasta), João Nicomedes (fotógrafo, MC e fundador da plataforma Cultura Preta) e João Gabriel Nganga (doutor em Cinema Negro) coloca em centro a produção fotográfica e cinematográfica como espaços possíveis para os Sujeitos Pretos.

Cada qual com suas percepções, a notificação está dada: precisamos ser o Centro, de diferentes formas e em diferentes espaços. Larissa Dardani oferece uma perspectiva interessante da veia comum que deve ser nutrida neste caminho de construção de nós mesmos ao falar de ‘Kbela’, que não utilizou de atrizes profissionais para ser rodado. Logo, o espaço do cinema e da narrativa se fizeram espaços comuns, para pessoas comuns, se entendendo juntas.

Por meio dos outros, também nos reconhecemos e criamos movimentos. Outras trajetórias Pretas – inclusive os da própria mesa – foram necessárias para o pontapé de João Nicomedes. A fotografia sempre teve nele um apelo subjetivo, despertando retratos e memórias de sua infância.  

Encantado com apelos visuais que já cogitava criar, e buscando aproximação para gerar reconhecimento, João encontra semelhantes logo no início da jornada profissional. ‘E desde o começo, comecei a conhecer pessoas, e o que me gratificou muito foi ser dentro da cidade. Comecei a ver os trabalhos do Felipe Vianna, da Dardani e de outros fotógrafos e falei: poxa, é isso’, ele conta.

As contribuições de João Nganga – que sempre inicia suas falas mencionando sua linhagem familiar – pensam a assimilação do cinema, da fotografia e das próprias letras para gerar disputas e poder. Passando pelo Cinema e Imprensa Negros, para Nganga é necessário criar vozes. De acordo com o especialista, elas precisam estar ‘além do audível, para além do escutável, precisam ser internalizadas’.

Alessandro teve sua arte aflorada quando seus pés estiveram em um povoado Preto. A de João, nascida com referenciais importantes para sua trajetória. Nganga é porque seus avós e pais foram. O primeiro dia da Mostra se encerra bradando que os processos das identidades Pretas só fazem sentido com solidariedade e quando feitos em conjunto.

Confira a Programação da Mostra Cultural:

*As atividades da Mostra oferecem inscrições presenciais.

05/09

Oficina de Break Dance, com Jemerson Carlos, às 16h

Rimas com Vaine, às 16h

Mesa de Debate “Rap e Formação Identitária”, às 19h, no Museu MuNa, Praça Cícero Macedo, 309


06/09

Baile Black, às 16h, na Vertical Escalada, Rua Rafael Lourenço, 45

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