Escrito por Tamy Reis

Na minha trajetória como DJ, uma pergunta aparece com frequência: a diversidade nas cabines e nos lineups realmente avançou ou ainda há um longo caminho pela frente? Para mim, as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. Houve avanços importantes, mas ainda estamos longe do cenário ideal.

DJ Tamy Foto: Maria Paula Freire

Toco há mais de 15 anos e acompanhei mudanças relevantes nesse período. A pauta da equidade de gênero, por exemplo, passou a ser discutida com mais força, muito por causa da luta de artistas e profissionais da cena. Mesmo assim, na prática, esse equilíbrio ainda aparece pouco.

Quem também observa essa transformação é o DJ Héron Love, que acompanha a evolução da cena há mais de duas décadas. “Eu toco há 25 anos e acompanhei todas as mudanças. Acho que avançou sim, tem muita gente boa entrando no jogo, muitas mulheres, pessoas da comunidade, artistas LGBT. A cena está mais diversa, mas ainda estamos longe do ideal”, afirma.

DJ Héron Love Foto: Divulgação
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Uma visão parecida é a do DJ Bruno X. Para ele, a diversidade aumentou, mas ainda não se transformou em equidade real. “Hoje conseguimos ver uma representatividade maior nas cabines e nos lineups, mas ainda estamos longe de uma equidade de fato. Acredito que ainda podemos diversificar muito mais do que diversificamos hoje”, avalia.

DJ Bruno X Foto: Divulgação

Em toda a minha carreira, lembro de ter tocado apenas uma vez em um lineup que realmente tinha equidade de gênero e de raça: a mesma quantidade de pessoas pretas e brancas e o mesmo número de homens e mulheres. Foi uma única vez. Pode parecer pouco, mas mostra como esse tipo de iniciativa ainda é raro. Outro ponto importante é a cobrança que recai sobre artistas negros. Muitas vezes existe uma exigência maior para que DJs pretos provem constantemente sua capacidade, enquanto outros profissionais circulam com mais facilidade entre diferentes espaços da cena.

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Quando penso na cultura DJ como um todo, é impossível ignorar suas raízes na cultura preta. Para Bruno X, essa origem é incontestável. “A cultura DJ vem de raiz preta, não tenho dúvida nenhuma disso. Se a gente olhar para o rap, que nasceu nos Estados Unidos, a base está em DJs como Kool Herc, um DJ preto jamaicano, e em toda a comunidade preta do Bronx onde tudo começou”, afirma.

Ele também chama atenção para a desigualdade que ainda existe na cena atual. “Até hoje a gente vê muito pouco DJ preto, principalmente mulheres pretas, nos lineups. E quando falamos de mainstream isso diminui ainda mais, porque é um espaço muito ligado a números, estética e mercado. O racismo e a falta de oportunidade para o povo preto não acontecem só na música, mas em várias áreas da sociedade”, diz.

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Segundo o DJ, essa realidade faz com que muitos artistas talentosos não tenham as mesmas oportunidades. “Eu conheço muitos DJs pretos e pretas extremamente talentosos que não têm as mesmas oportunidades dentro do mainstream”, completa.

Para Héron Love, o protagonismo também passa por uma consciência histórica dentro da própria cultura. “Dentro do hip-hop eu sempre me coloquei nesse lugar de protagonismo. Cresci vendo pessoas negras conduzindo esses movimentos e isso sempre foi referência para mim”, explica.

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Ele também destaca o papel central do DJ nessa história. “O DJ é o pai do hip-hop. Cabe a nós preservar os princípios, a comunicação com o público e a forma de conduzir a música.”
Bruno X acrescenta que essa valorização também acontece na forma como o DJ constrói o próprio set. “É importante tocar aquilo que faz parte das suas raízes e da sua vivência. Existe um momento certo para cada música. Quando o DJ coloca isso na hora certa, o impacto é muito maior e a cultura chega ao público de forma mais forte.”


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