Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê, Olodum ou Malê Debalê: certamente você já viu milhares de foliões atrás desses trios durante o Carnaval de Salvador. Os tradicionais Blocos Afro contam histórias que atravessam gerações, não apenas pelo batuque, mas por indumentárias e cores – semiótica que chama atenção pela leitura respeitosa, desde a fundação das agremiações nos Anos 70.

Cáren Cruz Foto: Laila Andrade

“Os ‘Blocos Afro’ são projetos políticos e culturais organizados a partir da identidade negra. Criados majoritariamente entre os anos de 1974 em diante, com o Ilê Aiyê, essas agremiações passaram a disputar espaço na festa ao afirmar uma estética própria, ancorada em referências afrodiaspóricas e na valorização da negritude em um Carnaval que, até então, marginalizava corpos e narrativas negras. A partir daí, as cores, tecidos, colares, códigos e símbolos carregados no corpo surgem como a extensão dessa luta por direitos e um manifesto de posicionamento dentro (e historicamente fora) do Carnaval”comenta Cáren Cruz, especialista em Colorimetria, RP e Investida do ‘Shark Tank Brasil’.

Quem observa o cortejo dos Blocos Afro nos circuitos Dodô (Barra/Ondina), Osmar (Campo Grande),  Pelô, e agora também no circuito das Águas (Itapuã), nota uma estética própria nas fantasias e vestes dos abadás, fundamentadas nas religiões de matriz africana. Desde a Banda Didá, que já trouxe as cores amarelo e dourado de Oxum, aos Filhos de Gandhy, que lotam as avenidas dos tons branco (Oxalá) e azul (Ogum); a escolha das cores e adereços traz uma história de protesto e resistência por trás da folia, segundo Cáren Cruz.

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“Antes mesmo de tocar no assunto das cores ou dos trajes, precisamos lembrar que originalmente, o termo ‘afoxé’ é conhecido por ser um ‘Candomblé de rua’. Portanto, apenas no significado podemos entender que o afoxé ‘Filhos de Gandhy’ já traz, em sua essência, o fortalecimento da identidade preta. A partir desse cenário, podemos entender melhor a escolha das vestimentas. Os trajes utilizados pelos ‘Filhos de Gandhy’, por exemplo, possuem forte associação ao ‘Candomblé’ e aos ‘Calundus’, somados aos búzios, vidrilhos e braceletes, com as cores que remetem aos Orixás”, observa. 

Para CárenCEO da Pittaco Consultoria e que atua auxiliando empreendedores negros à se posicionarem imageticamente no mercado de trabalho, o Carnaval também cumpre um papel educativo.

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“Quando os Blocos Afro ocupam as ruas com cores, tecidos e símbolos, eles estão comunicando valores, histórias e pertencimento. O branco associado à paz e à espiritualidade, os diversos tons das cores ligados aos orixás, os búzios como símbolo de proteção e ancestralidade, e as estampas que remetem a reinos, histórias e um modo de pensar coletivo do continente africano. Esses tecidos ‘dialogam’ com a permanência do corpo negro na festa, enquanto as cores funcionam como códigos sociais que narram orgulho, ancestralidade e espiritualidade. É uma estética pensada (e fundada) para existir, resistir e ensinar, mesmo em meio à folia.”, elucida.

Desde a fundação do primeiro ‘Bloco Afro’ de Salvador, o Ilê Aiyê, que o bairro do Curuzú e seus 100 primeiros participantes se tornaram símbolos de resistência e identidade no Carnaval de Salvador. Hoje, esses trios conduzem homens e mulheres negras pelas avenidas, que vêem uma oportunidade de expressar a força da identidade cultural afro-brasileira.

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Apesar das atrações, Cáren explica que a ‘riqueza cultural’ ainda é um dos maiores chamarizes do Carnaval de Salvador; que recebe forte influência dos Blocos Afro. Nesse cenário, a Consultora de Imagem afirma que a escolha das cores, tecidos e adereços não obedece à lógica da tendência, mas a sistemas simbólicos herdados das religiões de matriz africana, onde cada ‘tom’, textura e ornamento comunica diversas mensagens identitárias e as mais fortes são proteção, força, espiritualidade e pertencimento coletivo.

“Ao falar de ‘indumentária’ (a história por trás do vestuário) nos Blocos Afro, falamos de uma construção visual que nasce da vivência negra. As cores não estão ali para simplesmente ‘embelezar’ o Carnaval, mas para organizar o corpo negro dentro da festa a partir de códigos ancestrais. Essa estética, fundada e difundida muito antes da década de 70 para cá, não é acessória: ela estrutura e reposiciona o corpo negro como sujeito central dessa narrativa, seja na história da sociedade, do Brasil, África e mundo, até desaguar no Carnaval”, conclui Cáren.


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