Escrito por Tamy Reis

Quando a gente fala sobre versatilidade na trajetória de artistas negros, é difícil separar totalmente escolha criativa de estratégia de sobrevivência. Na minha visão, as duas coisas caminham juntas, mas, muitas vezes, é a sobrevivência que fala mais alto. Ser múltiplo não é só sobre querer criar em várias linguagens, é sobre continuar existindo profissionalmente em um sistema que, historicamente, nos oferece menos espaço e menos tempo.

DJ Tamy Foto: Divulgação

O cantor e compositor Hodari traduz bem essa realidade ao lembrar que o trabalho artístico exige atualização constante. Para ele, ser artista não é só um sonho, é profissão. Envolve entender o que está acontecendo na cultura, nas novas tecnologias musicais e até revisitar saberes ancestrais. “Se você quer estar inserido na indústria e viver disso, precisa tratar como trabalho mesmo. É como CLT, carteira assinada. Dependendo do segmento, você precisa se atualizar o tempo todo para acompanhar o mercado e gerar renda”, afirma.

Essa necessidade se intensifica em um cenário em que a música deixou de ser um produto físico. Hoje, as canções circulam no digital, no ar, como ideias, harmonias e conceitos. Isso faz com que artistas precisem se reinventar não só artisticamente, mas também na forma de existir economicamente. Como o próprio Hodari pontua, o mercado está aberto para novas sonoridades o tempo inteiro, o que cria oportunidades, mas também uma cobrança constante por novidade.

Hodari Foto: PIRYGÓTIK
Anúncios

Hodari também fala sobre como essa pressão se manifesta de forma desigual. Segundo ele, embora a cobrança exista para todos, artistas negros enfrentam um cenário ainda mais duro, já que os investimentos costumam chegar de forma diferente e mais limitada. “Não vemos muitos artistas negros nas grandes mesas de negociação ou no topo dos charts. Isso faz com que o trabalho chegue até um certo ponto e, para ir além, seja preciso encontrar outros caminhos”, reflete.

Hodari Foto: PIRYGÓTIK

Mesmo diante desse contexto, ele reconhece a importância de olhar para a própria trajetória com orgulho. Suas vivências fora da música, a formação em design, experiências profissionais diversas e o contato com referências que o inspiraram desde a juventude ajudaram a criar uma base sólida para lidar com a pressão. Conquistas como turnês internacionais, colaborações com artistas admirados e indicações ao Grammy também aparecem como lembranças de que o sonho, apesar de difícil, é possível.

Anúncios

São muitas camadas envolvidas nessa discussão. A versatilidade, muitas vezes celebrada, também revela um sistema que cobra mais esforço, mais entrega e mais reinvenção de alguns corpos do que de outros. Falar sobre isso é importante, porque ajuda a entender que, por trás da multiplicidade, existe talento, mas também resistência.


Descubra mais sobre Cultura Preta

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Anúncios