O governo do Rio de Janeiro, liderado pelo governador Cláudio Castro (PL), realizou na madrugada de ontem (28) uma megaoperação nas favelas do Complexo do Alemão e da Penha, que resultou em mais de 120 mortes e 81 prisões, sendo considerada a maior chacina da história do estado.


Quem são as vítimas
Até o momento, não foram divulgadas informações sobre a identidade dos mais de 120 pessoas mortas na operação. As autoridades confirmaram apenas os nomes dos quatro policiais que também perderam a vida:
- Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, 51 anos, conhecido como Máskara;
- Rodrigo Velloso Cabral, 34 anos, da 39ª DP (Pavuna);
- Cleiton Serafim Gonçalves, policial do Bope;
- Herbert, policial do Bope.
O número de mortos na operação, batizada de Contenção, superou o da ação policial no Jacarezinho, em 2021, quando 28 pessoas foram assassinadas. “Essa operação é uma das mais letais da história do Rio de Janeiro”, afirmou Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Especialista em segurança pública critica a ação
Para Pablo Nunes, diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), a megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) não tem precedentes e representa um marco negativo na política de segurança pública do estado:
“É algo sem nenhum tipo de justificativa, talvez a operação mais irresponsável da história do Rio de Janeiro.”
Segundo Nunes, as imagens da operação repetem o mesmo padrão de ações anteriores, com resultados igualmente trágicos.
“A pergunta é: por que continuamos usando as mesmas estratégias?”, questiona o pesquisador.
Ele defende que o combate ao crime deve ocorrer com novas estratégias, baseadas em inteligência e políticas públicas de prevenção.
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“Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das operações policiais nas comunidades marginalizadas do Brasil. Lembramos às autoridades suas obrigações sob o direito internacional dos direitos humanos e pedimos investigações rápidas e eficazes”, afirma a nota, publicada na rede social X.
Em pronunciamento, o governador Cláudio Castro afirmou que o Rio “estava completamente sozinho nessa luta”. Ele admitiu que o estado tem excedido suas competências no combate ao crime, mas afirmou que continuará “na missão de servir e proteger o povo”.
Para Pablo Nunes, as falas do governador têm mais marketing do que substância.
“Trata-se de uma busca desesperada por uma marca política, mais do que uma ação com base técnica ou estratégica”, criticou.
Prisões e apreensões
Entre os presos está Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como Belão do Quitungo, apontado como homem de confiança de Doca, um dos líderes do CV nas ruas.
Ao todo, 81 pessoas foram presas, incluindo lideranças da facção de outros estados.
A polícia apreendeu 31 fuzis, rádios comunicadores e mais de 200 kg de drogas.
Falta de articulação entre as forças
Renato Sérgio de Lima destacou que não houve coordenação entre as forças de segurança, o que fragiliza a operação.
“O Comando Vermelho precisa ser enfrentado, mas a Polícia Federal não foi envolvida”, afirmou.
Ele comparou a ação com a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto contra o crime organizado na economia formal, que mirou o setor de combustíveis e instituições financeiras em São Paulo. “Não houve um único tiro naquela operação. A pergunta que fica é: para o governo do Rio, a prisão de uma pessoa justifica a morte de outras 56?”, questionou.
Opinião – Victor Leal
A chacina disfarçada de “operação” nas favelas do Rio é mais um retrato da falência da segurança pública no país, um sistema que deveria proteger todos os cidadãos, mas continua a tratar territórios periféricos como zonas de guerra.
Ao ordenar uma operação com 2.500 agentes, helicópteros, veículos blindados e carros de destruição, sob o pretexto de combater o tráfico, o governador Cláudio Castro coloca em risco não apenas a vida dos policiais envolvidos, mas principalmente a dos moradores, que vivem sob constante medo e vulnerabilidade.
Essas ações, longe de trazer paz, apenas alimentam o ciclo de violência e reforçam a lógica de extermínio das populações pobres e pretas das favelas. Amanhã o Complexo do Alemão e da Penha não estarão mais seguros, os grupos armados apenas se fortalecerão para evitar novos confrontos.




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